Sabrina Noivas 102 - A Father Betrayed

Haveria uma nova chance de ser feliz? Clay estava de volta. E Samantha parecia-lhe to bela quanto no dia em que o abandonara. Mas agora havia uma diferena: ela era me de um garotinho. Os mais profundos pesadelos de Samantha estavam se tornando realidade. Se Clay descobrisse a verdade, sem dvida lutaria pela custdia do filho. E ela no perderia apenas Jess, mas tambm o seu amor, pela segunda vez.

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2000
Publicao original: 1994
Gnero: Romance contemporneo
Estado da Obra: Corrigida
Srie Fabulous Fathers
Autor	Ttulo	Ebooks	Data
Ferrarella, Marie	Father Goose
	Jun-1992

Collins, Toni	Letters from Home
	Oct-1992

Palmer, Diana	Emmett
Destinos 083 ou Sabrina 824	Jan-1993

Michaels, Kasey	Uncle Daddy
	Feb-1993

August, Elizabeth	Haunted Husband
	Mar-1993

Carey, Suzanne	Dad Galahad
	Apr-1993

Whitney, Diana	One Man's Vow
	Jun-1993

Peters, Anne	Accidental Dad
	Jul-1993

Gordon, Lucy	Instant Father
	Aug-1993

Cassidy, Carla	Pixie Dust
	Sep-1993

Adams, Pepper	Mad About Maggie
	Oct-1993

Monroe, Carolyn	Help Wanted: Daddy
	Nov-1993

Broadrick, Annette	Daddy's Angel
	Dec-1993

Morgan, Kristin	Rebel Dad
	Jan-1994

Ireland, Liz	The Birds and the Bees
	Feb-1994

Paige, Laurie	Caleb's Son
	Mar-1994

Kaye, Gayle	Daddy Trouble
	Jun-1994

James, Arlene	Mail-Order Brood
	Aug-1994

Varner, Linda	Dad on the Job
	Oct-1994

Whisenand, Val	A Father Betrayed
Sabrina Noivas 102	Nov-1994

Cassidy, Carla	Anything for Danny
	Dec-1994

August, Elizabeth	Ideal Dad
	Jan-1995

Halldorson, Phyllis	Father in the Middle
	Feb-1995

Clayton, Donna	Nanny and the Professor
	Mar-1995

Bagwell, Stella	Daddy Lessons
	Jun-1995

MacKenzie, Myrna	The Daddy List
	Jul-1995

Michaels, Kasey	The Dad Next Door
	Oct-1995

Essig, Terry	Daddy on Board
	Nov-1995

Carey, Suzanne	Father by Marriage
	Dec-1995

August, Elizabeth	A Father's Vow
	Jan-1996

McMahon, Barbara	Sheik Daddy
	Feb-1996

Steffen, Sandra	A Father for Always
	Mar-1996

James, Arlene	Most Wanted Dad
	Apr-1996

Morgan, Kristin	Welcome Home, Daddy!
	May-1996

Tarling, Moyra	Twice a Father
Sabrina 1008	Jun-1996

Clayton, Donna	Daddy Down the Aisle
	Jul-1996

Longford, Lindsay	Undercover Daddy
	Aug-1996

Smith, Karen Rose	Most Eligible Dad
	Sep-1996

James, Arlene	Desperately Seeking Daddy		Nov-1996

Meier, Susan	Merry Christmas, Daddy
	Dec-1996

Essig, Terry	Mad for the Dad
	Jan-1997

Longford, Lindsay	Daddy by Decision
	Feb-1997

Palmer, Diana	Mystery Man
Julia Carto Postal 46	Mar-1997

Peters, Anne	My Baby, Your Son
	May-1997

Dalton, Pamela	And Baby Makes Six
	Jul-1997

Paige, Laurie	Wanted: One Son
	Sep-1997

Harbison, Elizabeth	Wife Without a Past
	Nov-1997

Parv, Valerie	The Billionaire's Baby Chase		Jan-1998

Meier, Susan	In Care of the Sheriff
	Mar-1998

James, Arlene	Falling for a Father of Four		May-1998

Whitney, Diana	One Man's Promise
	Jul-1998

Colter, Cara	The Cowboy, the Baby and the Bride-To-Be	Sabrina 1077	Sep-1998

Wilson, Leanna	Are You My Daddy?
	Nov-1998

Cochrane, Kia	A Rugged Ranchin' Dad
	Jan-1999

Clayton, Donna	His Ten-Year-Old Secret
	Jun-1999

O'Donnell, Jodi	Dr. Dad to the Rescue
	Aug-1999














CAPITULO I

A tarde de vero se estendia, amena, sobre as ruas tranquilas do bairro residencial de Cheney, bastante afastado do centro da cidade.
As casas, em sua maioria, eram antigas. Os jardins, muito bem cuidados, estavam floridos. Os gramados, verdejantes, mais pareciam macios tapetes dispostos diante das casas.
Samantha Adamson aproveitava um intervalo no trabalho para dar um passeio. Caminhando lentamente por entre as flores, ela experimentava um prazer sutil ao receber os raios de sol na pele.
Sua mente ainda estava concentrada na tela do computador, onde deixara a ltima linha de sua coluna semanal por terminar.
Queria um fim brilhante para a histria que havia escrito... Algo que fizesse os leitores refletirem sobre temas importantes, como liberdade e direitos humanos. Mas ainda no encontrara a frase certa.
Em seus olhos azuis, pairava uma sombra de dvida. Mas nem por isso Samantha deixava de admirar as ptalas multi-coloridas das flores que pareciam entregar-se s carcias dos raios do sol, exalando um perfume tnue e insinuante.
Com a ateno dividida entre a beleza das flores e o artigo por terminar, Samantha demorou a perceber o BMW esporte, prateado, que acabava de parar bem rente  calada.
Sentado ao volante, um homem de olhos e cabelos negros, aparentando trinta e poucos anos, trajando um terno impecvel, observou o ambiente em torno com ar de aprovao. S ento desceu do veculo e caminhar em direo a Samantha.
	Boa tarde. Como tem passado, Samantha Adamson?
O homem estava parado a poucos metros de distncia e a fitava com seriedade.
Os olhos azuis de Samantha, que naquele momento estavam fixos numa moita de miostis, ergueram-se para fixar o visitante inesperado.
Por um longo momento ela o observou, impassvel, sem demostrar nenhum sinal de reconhecimento. Ento seus lbios corados entreabriram-se e seus olhos se arregalaram, numa expresso de surpresa.
	Clay Ellis!  ela murmurou, numa exclamao abafada.
	 voc... Meu Deus!
Sem saber como interpretar aquela espcie de saudao, ele respondeu, num tom neutro:
	Eu mesmo, Samantha. Seu telefone no est na lista.
Por isso no pude avis-la de minha chegada.
	O que est fazendo aqui? O que deseja?
"Se at o presente tive dvidas a respeito dos sentimentos de Samantha por mim, agora est tudo esclarecido", ele pensou, com pesar. "Ela me  francamente hostil."
Resignado, respirou profundamente antes de dizer:
	Gostaria de conversar com voc. Poderia me conceder alguns minutos?
	No temos nada a dizer um ao outro. E agora, se me der licena...  Voltando as costas para a visita indesejvel, Samantha quis afastar-se, mas Clay segurou-a pelo brao.  Solte-me  ela reagiu, indignada.  Como ousa?
	No faa cenas, Samantha  ele pediu, num tom severo.
	J disse que preciso falar com voc. Vai me convidar para entrar, ou prefere dar um show para os vizinhos?
Em vez de responder, ela olhou por sobre a cerca-viva que separava os quintais.  esquerda, pde ver o jardineiro da vizinha, a sra. McAde, observando-a com ateno. Do outro lado da rua, um casal de meia-idade tambm a olhava.
	Est bem, Clay Ellis  ela cedeu, furiosa. --- Vamos entrar.  Voltando-se, ela transps os poucos metros que a separavam da porta frontal da casa. Abriu-a com um gesto brusco e entrou no hall. 
Clay a seguia de perto. E sobressaltou-se ao v-la virar-se rapidamente, encarando-o com agressividade.
	O que voc quer de mim, Clay Ellis?
	O endereo de Vicky... Simples, no?
Ento era isso, Samantha pensou, aliviada. Por um instante, julgara que Clay soubesse a verdade, que houvesse desvendado o segredo que ela trazia, muito bem trancado, em seu corao sofrido. Num tom mais brando, perguntou:
	Como conseguiu me localizar?
	Li sua coluna no Inland Empire Exprex. Depois, foi apenas
uma questo de ligar para um conhecido que trabalha l. Ele deu-me seu endereo.
	Como  o nome desse conhecido?
	Peter Moon.
	Sei de quem se trata  Samantha assentiu, lembrando-se do colega, que trabalhava no setor esportivo do jornal.
O silncio caiu entre ambos, como uma cortina densa e pesada. Clay foi o primeiro a quebr-lo:
	Vir at aqui foi uma deciso difcil, mas no me arrependo de t-la tomado.
Samantha encostou-se na parede do hall, enquanto se recuperava do susto que a visita inesperada daquele homem havia lhe causado.
	Oua, Sami  ele disse, num tom subitamente brando.
	No quero tomar seu tempo, nem impor minha presena. Voc deixou bem claro, muitos anos atrs, que nada queria de mim. Ento, por favor, passe-me o endereo de minha ex-esposa e vamos acabar com esta conversa intil, sim?
Samantha sabia que tinha de pensar rpido, para encontrar um meio de demover Clay de seu intento. Pois no tinha a menor inteno de atender ao seu pedido.
	Ex-esposa...  ela repetiu, irnica.   engraado ouvi-lo falar assim, de Vicky.
	Mas Vicky  isto para mim, atualmente: minha ex-esposa.
	ele sentenciou, no mesmo tom.  Ou voc prefere que eu me refira a Vicky como uma loira, de compleio delicada, corpo escultural, jovem e sem muito controle sobre o que fala... Conhece essa doce garota?
	Muito engraado  Samantha resmungou.
Clay cruzou os braos, numa atitude viril da qual ela se lembrava to bem. Uma onda de forte emoo a invadiu, diante daquele gesto to natural e simples.
No vim aqui para diverti-la, embora voc fique muito bonita, quando ri  ele declarou, reassumindo o tom severo.
	Preciso encontrar Vicky. E j que ela  sua irm, creio que voc seja a pessoa mais indicada para dizer-me aonde ela se encontra.
	No sei  Samantha respondeu, sentindo que sua voz falhava, denunciando a mentira que acabava de dizer.
A reao de Clay foi furiosa:
	 lgico que voc sabe. Acha que pode me enganar?
	V embora  Samantha ordenou.  Saia de minha casa.
	Tentou abrir a porta da rua, mas ele a impediu com facilidade, apoiando ambas as mos na maaneta:
	Pare com isso Samantha. Mesmo porque, no vai adiantar nada...
	 o que veremos!  ela o desafiou.
	J chega de cenas dramticas.
O tom de voz de ambos havia subido de volume, de acordo com o fervilhar dos sentimentos que os dominavam. Tomando sbita conscincia desse fato, Samantha procurou controlar-se.
	Por favor...  pediu, ofegante  vamos agir como pessoas civilizadas, sim?
Perturbada, ela pensava em Jess, no segundo andar da casa, dormindo seu sono inocente... e leve!
Se ele acordasse com a discusso e descesse para ver o que estava acontecendo... A sim, Clay teria outras perguntas a fazer... Perguntas bem mais difceis de responder, alis.
	Para comeo de conversa, pessoas civilizadas no recebem visitas em p, no hall  disse Clay, irritado.
	Est bem  ela concordou, resignada.  Vamos nos sentar na sala, ento. Mas, por favor, modere o volume da voz e trate de controlar seu gnio impulsivo.
	Veja quem fala...  Ele riu, baixinho, enquanto a seguia at a sala. Sem esperar pelo convite, sentou-se confortavelmente num antigo sof, estendendo as longas pernas, muito  vontade.
	Assim est melhor... Muito melhor.
	Fico feliz por voc estar se sentindo confortvel  ela disse, com ironia.
Clay fitou-a com intensidade. Era sempre um prazer contemplar a beleza... E Samantha Adamson continuava a ser a mulher mais bela e desejvel que ele conhecia. De sbito, sentiu unia irresistvel vontade de beij-la... Tanto, que teve de fazer um grande esforo para se controlar e retomar o assunto que o trouxera at ali.
	Onde est Vicky?  perguntou, num tom severo.
	J disse que no sei  Samantha respondeu, rspida.
Fechando os olhos, Clay contou at dez, para no explodir. Imprimindo  voz uma calma que estava longe de possuir, disse:
	Vamos tentar de outra maneira... Quando foi que voc viu, ou teve notcias de Vicky pela ltima vez?
	Por que quer saber?
	Tenho um assunto a tratar com ela.
	Que espcie de assunto?
	J entendi... Sua inteno  proteger sua irm contra mim, no? Como se ela ainda fosse a garotinha que voc criou, depois da morte de seus pais!
Samantha nada disse. Apenas mordeu o lbio inferior, num claro sinal de nervosismo.
"Parece que a simples meno dos pais j  suficiente para lhe trazer amargas recordaes", Clay pensou, antes de afirmar:
	Se quer saber, no estou atrs de Vicky para lhe causar problemas. Trata-se exclusivamente de negcios.
	Muito bem.  Samantha cruzou os braos.  Apenas me pergunto que espcie de negcios voc pode ter com ela, atualmente. Pelo que sei, o divrcio de vocs j foi concludo.
	Meus negcios com Vicky no lhe dizem respeito  Clay declarou.  No queria ser grosseiro, mas vejo-me obrigado a dizer isso, diante de sua insistncia.
	Ento, voltamos  estaca zero.  Samantha lanou-lhe um olhar glido. Em seguida, voltando-lhe as costas, caminhou at a janela e debruou-se no parapeito. Contemplando o belo jardim florido, procurou acalmar as batidas descompassadas do corao.
Ser que voc no percebe que est sendo ridcula?  Clay argumentou, duramente.  Sua irm  uma mulher-feita e j no precisa de proteo maternal.
Certas pessoas parecem sempre precisar de algum que as protejam.
	E voc pretende exercer esse papel at o fim, pelo que vejo?  ele retrucou, num tom amargo.   isso, Samantha Adamson?
	A vida me imps certas condies, Clay Ellis. Agora  tarde para me revoltar contra elas, ou mudar de atitude.
	Do que voc est falando?
	Do seu desastroso casamento com Vicky. Se eu soubesse a tempo, teria impedido aquela loucura.
Aquelas palavras atingiram Clay como uma bofetada. E ele reagiu instintivamente:
	Se voc tivesse se casado comigo, em vez de fugir covardemente para San Francisco, eu no teria desposado sua irm.
	Sempre fui muito clara, sobre esse assunto. Sempre lhe disse que gostava de minha vida de solteira e que no pensava em casamento.
Lentamente, Clay ergueu-se da poltrona, exibindo sua alta estatura. Aproximou-se de Samantha, praticamente obrigando-a a fit-lo, at que a distncia entre ambos se reduzisse a quase nada.
	Lembro-me bem disso... Voc sempre fazia belos discursos a respeito de sua vontade de permanecer solteira. S que voc nunca me disse porque pensava assim.
	Este assunto ficou no passado... E no pretendo discuti-lo com voc, agora, nem no futuro. Portanto, esquea-o  concluiu, num tom spero, enquanto desviava os olhos.
Agora Clay podia sentir, de modo ainda mais intenso do que antes, a fora do desejo que o invadia... Desejo vindo do desespero de no compreender aquela mulher, que tantas vezes vibrara de paixo em seus braos. E que no entanto sempre lhe parecera uma incgnita, um permanente mistrio.
	Voc no mudou muito, nesses anos todos, no  mesmo?
 ele comentou, como se para si.
Havia tanta tristeza e desencanto naquela voz grave e pausada, que Samantha sentiu as lgrimas subindo-lhe aos olhos. Num gesto de instintiva proteo, voltou novamente as costas a Clay. E sua voz soou ligeiramente trmula, ao dizer:
	No mudei... E ser que isso deve ser considerado um defeito?
	Suponho que no.
Clay levou a mo ao bolso e extraiu uma elegante carteira de couro, de onde retirou um pequeno carto de visitas bege.
	Vou deixar meu carto com voc. Entregue-o a Vicky, por favor.
	Deixe-o sobre o aparador do hall, ao sair  Samantha recomendou, sem se voltar.
	Promete que dar um jeito de entreg-lo?  importante...
Samantha no queria se comprometer. Mas no lamentvel estado emocional em que se encontrava, no tinha condies de continuar discutindo com Clay. Por isso concordou, a contragosto.
	Verei o que posso fazer.
Ele se retirou, em silncio. E Samantha afastou-se da janela, para no v-lo passar pela varanda, descer os poucos degraus que a separavam da calada, entrar no carro e partir.
Arrasada, ela atirou-se no sof, sentando-se desastradamente no mesmo lugar onde Clay havia estado e que conservava ainda o calor de seu corpo. Um arrepio de pura sensualidade atingiu-a como um raio, surpreendendo-a com a fora exagerada de sua potncia.
	Oh, Clay  ela gemeu, baixinho.  Por que voc voltou?
O rudo do possante motor do carro de Clay se afastando foi a nica resposta quela queixa.
Em vo, Samantha tentou retomar o trabalho, depois da visita inesperada de Clay. O artigo que estava escrevendo continuava sem final.
Cada momento do encontro com Clay vinha-lhe  mente com uma nitidez cruel, impedindo-a de se concentrar. Exausta e irritada, Samantha desligou o computador e recostou-se na cadeira giratria.
Detestava admitir, mas o fato era que o medo havia estado presente em todos os momentos daquele encontro.
Samantha considerava-se uma mulher de fibra. A vida testara duramente sua capacidade de sobrevivncia fsica e mental. E ela vencera.
Estava consciente de que Jess fora um presente dos cus, num momento em que nada parecia fazer sentido em sua vida. Apegara-se quela oportunidade como um nufrago  bia de salvamento. E fizera de Jess a principal razo de sua existncia.
Para Samantha, a simples possibilidade de perder Jess era inconcebvel. Mas Clay, com sua presena marcante e seu charme inquestionvel, ameaava a estabilidade do mundo que ela havia construdo com Jess. Afinal, Clay tinha l seus direitos...
Com um calafrio de medo, Samantha interrompeu aquele fluxo de pensamentos. Saindo da pequena saleta no andar trreo da casa, que havia transformado em seu escritrio, ela dirigiu-se  cozinha.
Preparou um caf bem forte e sorveu-o lentamente, tentando acalmar os pensamentos que acorriam-lhe  mente numa velocidade vertiginosa.
No piso superior, Jess dormia o sono dos anjos, sem saber que seu mundo estava ameaado por acontecimentos fora de qualquer controle. Desde o fundo de seu corao, Samantha jurou que lutaria at o fim pela felicidade dele.
J fazia dois dias que Clay havia estado ali. E seu carto, com o telefone sublinhado a lpis, permanecia sobre o aparador do hall. Samantha evitava at mesmo olhar para ele. Sabia que sua atitude era infantil, que a qualquer momento teria de tomar uma providncia a respeito disso, mas adiava...
O grande relgio da sala de estar marcava quinze para as trs da tarde, quando a campainha soou longamente, fazendo Samantha estremecer.
Com o corao aos saltos, ela dirigiu-se  porta. Abriu-a e deparou com Clay.
Elegante como sempre, num terno azul escuro, os olhos negros luzindo numa expresso de expectativa, ele indagou:
	E ento?
	Ento o qu?  Samantha retrucou, na defensiva.
	Voc sabe do que estou falando. Passou meu telefonei para Vicky?  Clay desviou os olhos de Samantha para o aparador do hall. Uma expresso de desagrado estampou-se em seu rosto de traos perfeitos, fazendo-o contrair-se. Ali estava seu carto, intocado, tal como o deixara dois dias atrs.
	Confesso que no tive tempo  Samantha justificou-se num tom neutro.  Precisava terminar minha coluna para nojornal e no pude pensar em outra coisa.
	eu esperava um pouco mais de considerao de sua parte.  ele se queixou, com um suspiro.  J lhe expliquei o quanto  importante, para mim, o assunto que tenho a tratar com Vicky.
	Compreendo  Samantha assentiu. E suas feies endureceram-se, ao acrescentar:  Acontece que tenho minhas prioridades e no pretendo troc-las pelas suas. Alm do mais, nem sei por onde comear a procur-la.
	Voc poderia simplesmente telefonar para as pessoas ligadas a Vicky e perguntar por ela.
	Por que voc mesmo no tomou essa providncia?
	Voc deve saber que nunca fiz parte das relaes de sua irm. Ela parecia ter um mundo  parte, que por sinal nunca me interessou.
	Posso imaginar. Os pobres seres humanos comuns, com suas conversas entediantes, sempre aborreceram voc.
	O contrrio tambm  verdadeiro  ele retrucou, com um meio-sorriso.  Eu tambm, com minha forma excntrica de ser, sempre aborreci as pessoas... pobre de mim!
Samantha no pde deixar de sorrir, reconhecendo naquelas palavras o velho e aguado senso de humor de Clay Ellis.
	E, assim sendo, eu devo procurar Vicky... por voc?
	 o que se costuma chamar de um favor.
	Compreendo.
Um silncio constrangedor caiu entre ambos. A tenso era quase palpvel no ar. A rejeio de Samantha, em contraponto com a insistncia de Clay, criava um impasse que parecia no ter fim.
	O que est havendo com voc, Sami?  ele indagou, invocando a intimidade que ambos haviam desfrutado, no passado.  Fomos amigos, um dia. Mesmo pensando muito, no consigo encontrar um motivo que explique seu procedimento de agora.
Ela o fitava com severidade, decidida a no se deixar comover por aquelas palavras.
	Foi voc que rompeu nosso contato e quebrou os laos que nos uniam  Clay continuou.  Sua partida inesperada, inexplicvel, para San Francisco, deixou-me atnito e muito magoado.
	E da voc achou que desposar minha irm seria a soluo correta para o caso?
A pesada ironia acertou o alvo e Clay acusou o golpe, mudando o tom de voz:
 O modo como uma pessoa reage ao abandono  problema s dela. Sobrevivi e isto  o que importa.
Samantha no respondeu.
Na mente de Clay o passado desfilava, como num filme antigo, onde Samantha era bem diferente da mulher fria e ausente que agora o fitava com dureza.
No passado, haviam sido amigos. Mais do que isso, alis: tinham sido namorados, companheiros quase inseparveis, naqueles dias difceis.
Clay ouvira falar das irms Adamson, quando a cidade inteira resolvera assumir a guarda de Samantha e Vicky, aps a morte chocante de seus pais.
Para tanto, um grupo de moradores fazia vrias reunies, a fim de discutir o assunto e ver o que seria melhor para as meninas.
Uma dessas reunies acontecera na casa de Clay. E ento fora decidido que, obedecendo a um sistema de rodzio, as duas irms ficariam um pouco na casa de cada famlia que quisesse e tivesse condies de abrig-las.
O tempo passara, as meninas cresceram.
Certo dia, Clay flagrara-se admirando o corpo esguio de Samantha, num baile do colgio que ambos frequentavam, embora em sries diferentes.
Ali iniciara-se uma relao, que logo transformara-se em algo muito mais srio do que ele imaginara, a princpio.
Samantha no era como as outras adolescentes que Clay conhecia. A profunda seriedade com que via o mundo a seu redor o fascinava. As ideias avanadas, os sonhos ousados, a inteligncia acurada... Tudo naquela garota era admirvel.
Mas nem sempre aquela espcie de namoro corria bem. Samantha era bastante arredia a seus carinhos exigentes, preferindo um contato quase fraternal. Muitas vezes, isso o deixava frustrado e inseguro.
Mas era um fato comprovado, por todos da cidade, que Samantha Adamson, uma jovem de beleza surpreendente, guardava todos os seus momentos Uvres apenas para Clay EUis
Ela recusava os convites de outros rapazes, para sair  de maneira gentil mas inflexvel. Isso aos poucos fora se tornando um hbito, que afastava os demais pretendentes.
Assim, ningum mais tinha dvidas a respeito dos sentimentos de Samantha por Clay Ellis: o nico ser que ela aceitava, em sua intimidade de adolescente arredia e tmida. Mesmo assim, no permitia que Clay avanasse alm de alguns beijos. Qualquer tentativa de aproximao maior era rechaada com firmeza.
Frustrado por no poder cumprir o desejo que aqueles beijos lhe acendiam no peito, Clay s vezes afastava-se de Samantha durante dias e at semanas. Mas depois voltava, arrependido e saudoso, tentando aceitar as condies de Samantha e contrariando, assim, sua natureza fogosa.
	Voc sempre foi um mistrio, Samantha Adamson  ele disse, com um suspiro.
Ela o fitou, surpresa, longe de imaginar as lembranas que o haviam assaltado, naqueles momentos de silncio.
	No sei ao certo do que voc est falando, Clay Ellis.
Mas imagino que se trate, ainda, de minha ida a San Francisco.
	Isto tambm.
	Que mistrio pode existir no fato de uma jovem procurar um campo de trabalho mais propcio, numa cidade grande? S voc no quis entender isto.
 O que me intrigou no foi exatamente o fato, e sim a forma como voc agiu.  Um sorriso amargo estampou-se em seus lbios e ele concluiu:  Para mim, sua ao foi uma fuga. S no compreendo do que ou de quem estava querendo se livrar....
Foi a vez de Samantha deter-se em lembranas. No era difcil voltar o tempo citado por Clay. Afinal, ela j o fizera muitas vezes, antes. E mesmo agora, passado tanto tempo, no via que outra soluo poderia ter tomado, na poca...
A relao com Clay havia se aprofundado de maneira inequivocamente bela... E assustadora! A ela, Samantha, cabia o triste papel de controlar as emoes de ambos, para que no chegassem ao que j parecia inevitvel.
Mas houvera uma tarde,  beira do lago, quando os beijos se tornaram to exigentes, que suas mos e as de Ellis, como se de repente adquirissem vontade prpria, comearam a descobrir outros prazeres... Ento Samantha compreendera que no poderia resistir mais.
Apesar dos traumas profundos que sofrera, era uma mulher jovem e ardente. No poderia mais conter o infinito amor que sentia por Clay Ellis. Por outro lado, se cedesse  voz imperiosa do desejo que a consumia, acabaria por perd-lo... Isso era mais do que certo. Melhor seria partir.
Assim ela pensava, desesperadamente, antes de desaparecer sem explicaes, deixando no ar uma interrogao que o tempo se encarregaria de apagar da lembrana de Clay e dos outros habitantes da cidade.
Antes isso do que ficar ao lado de Clay e um dia ver, em seus olhos negros, o horror, a repulsa e o pior de todos os sentimentos: a pena.
Fora exatamente assim que ela pensara, ao partir para San Francisco, h tanto tempo. E ainda agora, compreendia que no lhe restara outra alternativa, seno aquela.
	Se voc ao menos me explicasse o motivo de ter partido to abruptamente...
A voz de Clay Ellis trouxe-a de volta  realidade.
Samantha suspirou. Como dizer agora tudo o que no pudera antes, quando fugira como uma sombra de um confronto cruel e inevitvel?
Samantha sorriu, com amargura. Era melhor assim, disse a si mesma, uma vez mais. A ignorncia dos fatos continuaria a proteger Clay do horror da realidade.
	Voc parece distante. Quer dizer, mais ainda do que o costume  ele comentou, com infinita tristeza.
	 o passado que sua presena vem me trazer de volta  ela respondeu lentamente.
	No sei porque voc s v o lado triste do que ficou para trs. Tivemos bons momentos, juntos.
	Eu sei. Mas isso no apaga o que foi ruim.
Clay considerou aquelas palavras com gravidade. Podia sentir, ainda, a fora de atrao que Samantha exercia sobre ele. . Era assustadoramente intensa, constatou, antes de tomar uma sbita deciso.
	Creio que estou agindo de maneira errnea.
	O que quer dizer com isso, Clay?
	Refiro-me ao fato de ter reaparecido de repente, de estar pressionando voc para que me coloque em contato com Vicky, enfim...  Interrompendo-se, ele fez um gesto vago.
Uma luz de esperana brilhou nos olhos de Samantha. Teria Clay Ellis mudado tanto, a ponto de desistir de um objetivo, por amor  lembranas passadas? O momento de iluso se desfez to rpido como veio, pois Clay continuou firme em sua posio:
	Vou seguir os meios habituais, para conseguir a informao de que necessito. Assim, no terei mais de incomod-la.
	No estou entendendo.
	Muito simples: ao sair daqui, contratarei um detetive particular. Assim, a questo estar resolvida. u deveria ter feito isso logo de incio, mas realmente no me ocorreu.
Um calafrio de medo percorreu Samantha da cabea aos ps. Fazendo um intenso esforo para manter o controle da voz, ela indagou:
Voc realmente acha necessrio agir assim?
No vejo outra sada, j que voc no quer colaborar.
O perigo era iminente, Samantha concluiu. Tinha de pensar rpido.
Qualquer detetive que buscasse o paradeiro de Vicky certamente descobriria mais do que um simples endereo... Perguntando aqui e ali, acabaria esbarrando com verdades que deveriam ficar  sombra.
Lutando para no ceder ao pnico, Samantha compreendeu que, decididamente, ela no podia correr esse risco.
	Est bem  cedeu, forjando uma calma que estava longe de possuir.  Vou colaborar.
	Otimo!  Clay sorriu, satisfeito.  Eu sabia que acabaria por convenc-la. Afinal, o que estou lhe pedindo no  nenhum absurdo. Obrigado, Sami. - Ele usava o apelido carinhoso que lhe dera, no passado.
	Apenas, h um pequeno detalhe...  ela afirmou, num tom grave.
	Qual?
	Preciso de tempo.
	Para me dar informaes sobre Vicky?
	Sim. As coisas no so to simples como voc pensa. 
	Quanto tempo?  A voz de Clay tornava-se novamente severa.
	 muito difcil dizer com preciso  Samantha respondeu, esquiva.
	Que tal uma semana?  ele props.  Seria suficiente?
	Oh, a est voc me pressionando outra vez  ela protestou, traindo uma forte ansiedade.  Quanto tempo um detetive levaria, para localizar Vicky?
	Creio que uma semana, no mximo dez dias.
	Dez dias, ento  ela disse, rpido... Rpido demais, por sinal.
Clay fitou-a com estranheza, bem no fundo dos olhos. Mas aos poucos seu rosto de traos perfeitos foi se descontraindo, enquanto um sorriso tmido insinuava-se em seus lbios.
	Est bem, Sami  ele concordou, por fim.  Dez dias.
Uma sensao de alvio a invadiu, como uma lufada de vento fresco em meio a um calor sufocante. Havia vencido aquela etapa, pensou. Havia ganho tempo.
Na verdade, ela ainda no tinha um plano concreto para se preservar contra Clay Ellis. Mas, de qualquer forma, havia conseguido afastar o perigo imediato.
	Bem, acho que isso  tudo.  A voz dele a sobressaltou.
	Sim  Samantha apressou-se a concordar.
	Se por acaso conseguir o endereo de Vicky antes desse prazo, por favor, entre em contato comigo.
	Eu farei isso.
	Caso contrrio, voltarei daqui a dez dias.
	Est bem, Clay. At l.
	At.  E com um aceno, ele se despediu.

CAPITULO II

Samantha conhecia Clay Ellis muito bem. Tinham sido amigos ntimos e, depois, namorados.
Chamar de namoro a relao que haviam tido, em meio a um vai-e-vem de emoes truncadas, numa verdadeira confuso de sentimentos, seria um exagero.
Mas Samantha conhecia-o o suficiente para saber, com certeza, que Clay no esperaria dez dias para voltar.
Ela no podia sequer arrepender-se por haver concordado em ajud-lo a localizar Vicky, Afinal, no lhe restara outra sada.
A vaga possibilidade de um detetive investigar o paradeiro da irm era intolervel. Afinal, um detetive acabaria deparando com outros assuntos, que Samantha pretendia manter em segredo. Por isso, apenas por isso, havia cedido  vontade de Clay Ellis.
Agora, estava comprometida pela palavra dada e no sabia como agir.
A primeira coisa que lhe veio a mente foi a necessidade de proteger Jess. Tinha de evitar, a qualquer custo, que Clay tomasse conhecimento da existncia do menino.
Mas como faz-lo, se o mais provvel era que um dia os dois se encontrassem naquela casa?
Samantha refletiu longamente sobre o assunto e ento teve uma ideia.
Era vero... Portanto, frias. Mesmo as crianas menores, em idade pr-escolar, no estavam frequentando suas escoli-nhas, convivendo ento com os irmos mais velhos e toda a famlia.
O caso se aplicava a uma vizinha de Samantha: a sra. Lind-son, que passava todo o tempo com os trs filhos pequenos.
Na verdade, Samantha no tinha grande simpatia pela vizinha. Mas sabia que ela era responsvel e muito amorosa com os meninos.
Tudo era uma questo de se combinar uma troca de favores. E, assim pensando, ela dirigiu-se  casa da sra. Lindson, para tratar do assunto. Voltou logo depois, aliviada e contente com o acordo que havia selado. Ela faria as compras semanais da vizinha que, em troca, cuidaria de Jess todas as tardes, em sua casa.
Resolvido esse problema, Samantha pde enfim se concentrar no trabalho. E encontrou um modo brilhante de finalizar sua coluna, para o jornal.
Mas assim que concluiu o trabalho, as lembranas do passado novamente a assaltaram, com uma fora descomunal.
Um dia dissera a Clay que estava se mudando para San Francisco, a fim de desenvolver sua carreira profissional... O argumento no fora, exatamente, uma mentira. Afinal, ela amava seu trabalho e sabia-se competente, s vezes at mesmo brilhante. Mas se no mentira, tampouco dissera toda a verdade... E a conscincia lhe pesava, por isso.
Com um brusco meneio de cabea, Samantha tentou afastar aqueles pensamentos desagradveis.
A tarde estava quente e ela caminhou at a janela. Debruando-se no parapeito, contemplou o jardim, esperando que a beleza das flores a ajudasse a se acalmar.
Mas as recordaes dolorosas, que ela tanto evitara ao longo dos anos, tinham voltado junto com Clay Ellis, que novamente vinha intrometer-se em sua vida.
A casa onde agora morava dava-lhe um sentimento de segurana e estabilidade que ela h muito no experimentava.
Com a morte dos pais, passara por diversas casas de estranhos, na companhia de Vicky, a irm mais nova, jovem demais para perceber a extenso da desgraa  qual estavam submetidas.
Samantha passara muitas noites insones, em casa de famlias nem sempre to amorosas quanto queriam parecer, rolando na cama, pensando em como proteger Vicky do assdio de algum irmo ou pai circunstancial, mal-intencionado ou apenas cruel.
Em sua extrema preocupao com a irm, nunca pensara nos perigos que ela prpria poderia correr.
Da seu espanto quando, numa noite quente de vero, o que tanto temera viera a acontecer... E justamente com ela!
A casa estava vazia, exceto por Vicky, que dormia no quarto ao lado. A famlia fora a uma festa, em casa de parentes.
Com os olhos fechados, Samantha deixou que as terrveis imagens do passado se estampassem em sua mente, com sua brutal nitidez...
Podia ouvir, ainda, o motor do carro sendo desligado na garagem, os passos pesados do pai circunstancial que subia a escada, a surpresa de ver a porta de seu quarto aberta com violncia, o cheiro adocicado e enjoativo do lcool que ele exalava... a ameaa.
Quem acreditaria que aquele homem respeitvel, um dos pilares da sociedade local, seria capaz de forar a mais velha das irms Adamson? E o fizera de forma absolutamente cruel, dizendo-lhe que, se no fosse atendido em suas torpes exigncias, defloraria a caula que dormia no quarto ao lado...
Samantha sobrevivera quele horror inominvel, conseguindo manter a integridade da irm mais nova. Mas as marcas tinham ficado impressas a fogo em seu corao e nada no mundo poderia apag-las.
Forando-se a voltar ao momento presente, ela foi at a cozinha e serviu-se de um pouco de ch. Sorveu-o em pequenos goles e depois lavou o copo, cuidadosamente, na pia de granito.
	Ainda bem que tenho meu trabalho  pensou, em voz alta.  O trabalho e Jess... Dois motivos mais do que suficientes para continuar vivendo.
	Samantha estava certa ao prever que Clay Ellis no esperaria o prazo combinado.
Apenas trs dias haviam decorrido de sua ltima visita, quando ele voltou a aparecer, trazendo um presente: um belo arranjo de margaridas, numa pequena cesta de vime.
	So suas flores preferidas, se me lembro bem  disse,  guisa de cumprimento.
	Obrigada,  muita gentileza sua. Entre, por favor.
	Pensei que no fosse me convidar  ele confessou, aliviado.
Ela sorriu, dando-lhe passagem.
Como sempre, Clay estava muito elegante, num terno cinza de corte impecvel. Bem barbeado, os olhos negros brilhantes destacando-se como nix preciosas no rosto de traos perfeitos, ele parecia recm-sado de um banho.
Ao passar por Samantha, deixou um aroma inconfundvel de loo ps-barba, que impressionou-a de maneira surpreendente.
Tudo, naquele homem, evocava o passado que, afinal, no fora totalmente amargo ou desagradvel. Tivera seu lado bom, como o prprio Clay dissera, Samantha pensou.
A colnia que ele usava, por exemplo, ainda era a mesma do tempo em que tinham namorado. E aquele jeito de sorrir meio de lado, com um misto timidez e encanto... era tambm o mesmo.
Uma ameaa de vertigem fez com que Samantha se sentasse na poltrona em frente ao sof, onde Clay j estava acomodado, como da vez anterior, com as longas pernas esticadas.
	E ento?  ele perguntou.  Voc conseguiu o endereo, ou telefone de Vicky?
	Santo Deus, Clay Ellis!  ela protestou, aborrecida.  Voc continua obsessivo como sempre.
	Alm de previsvel; cabea-dura, teimoso e tudo mais... Certo?
	Ainda bem que reconhece seus defeitos.
	 uma de minhas poucas virtudes  ele retrucou, com aquele senso de humor agudo e certeiro, que sempre o caracterizara.
	Oua, Clay... No sei o que voc pensa sobre minha vida, mas sou uma pessoa muito ocupada, sabe? Tenho diversos compromissos, inclusive uma coluna semanal, que devo entregar, impreterivelmente, s quartas-feiras.
	E suponho que com isso voc queira dizer que no teve tempo de cuidar de nosso assunto...
	Seu assunto  ela o corrigiu.  No vamos confundir as coisas, por favor.
	Como queira, Samantha... Mas voc entendeu o que eu quis dizer: referi-me ao meu assunto, a respeito do qual voc concordou em ajudar.
	Dez dias  Samantha sentenciou, irritada.  Este foi o prazo estipulado. Mas eu deveria saber que voc no me daria folga.
	At parece que minha presena a desagrada  Clay retrucou, visivelmente ofendido.  E se eu tivesse passado por aqui apenas para v-la?  Erguendo-se, comeou a caminhar pela sala.
Samantha nada respondeu. E ele prosseguiu:
	Se voc tivesse telefone, como a maioria dos seres humanos, alis, eu poderia ligar antes, avisando de minha vinda.
Tambm dessa vez, Samantha no respondeu. Estava pensando em Jess, a salvo na casa da sra. Lindson, to perto dali. Como o menino se parecia com Clay! Tinha os mesmos olhos e cabelos negros, o mesmo formato dos lbios, naturalmente corados, a mesma testa alta...
Se algum os visse juntos, no teria qualquer sombra de dvida em defini-los como pai e filho. Pois ambos eram incrivelmente semelhantes.
Um leve sorriso insinuou-se na boca de Samantha, que agora se lembrava da primeira vez em que tivera Jess nos braos... Era como estar com uma rplica perfeita de Clay, s que em propores absurdamente pequenas.
Conviver dia-a-dia com o menino, vendo-o crescer e desabrochar, tinha sido uma emoo indescritvel.
	...Voc no concorda?
A voz Clay trouxe-a de volta ao momento presente.
	Perdo  ela murmurou, piscando os olhos azuis.  O que foi que voc disse?
	Acho que estou falando com as paredes  ele resmungou, irritado.
	Desculpe, Clay. Acho que me distra por um momento.
	Um longo momento, diga-se de passagem.
	O que voc estava dizendo?
	Nada de importante, acredite  ele respondeu, seco.
Samantha sorriu ao v-lo irritado. Os lbios haviam se contrado ao mesmo tempo em que os olhos se estreitavam. Jess ficava exatamente assim, quando contrariado. E pensar que o menino poderia no ter vindo ao mundo...
Meneando a cabea para afastar aqueles pensamentos indevidos, Samantha decidiu:
	Vou fazer um caf para ns. Bem forte e com pouco acar, no  assim que voc gosta?
	Voc ainda se lembra...
	Lgico.  Ela se ergueu.  Minha memria continua prodigiosa, como antes.
	Vejamos se  verdade.
Sem o menor aviso, Clay enlaou-a pela cintura e, atraindo-a para si, beijou-a com intensidade e paixo.
E Samantha pensou que sim, que era exatamente daquele jeito que se sentia, no passado, quando Clay a beijava. O choque inicial, a rejeio instantnea e depois o corpo todo amolecendo, cada fibra de seu ser se entregando quela sensao deliciosa, o latejar do sangue correndo como fogo nas veias... Era o paraso.
Quanto tempo durou aquele beijo? Samantha no saberia dizer. Uma eternidade ou um segundo: que diferena faria?
Mas era como voltar no tempo e mergulhar em guas claras, sentir a brisa nos cabelos, sonhar com um mundo melhor, a salvo da dor e do medo. Era a perfeio em forma de sentir.
	Sami... Por que me deixou?  Clay perguntou, baixinho, ainda mantendo-a nos braos.  O que aconteceu, na verdade, para faz-la fugir para to longe?
Ela no respondeu. E ele insistiu:
	Ainda agora posso sentir seu corpo vibrando, como antes, quando eu a beijava. Voc sente desejo, no negue.
	Eu nunca disse que no o desejava, Clay...
	Mas no o suficiente para se casar comigo  ele retrucou, num tom amargo.
	Por favor, Clay...
A campainha soou, interrompendo aquele momento raro. Desprendendo-se com dificuldade dos braos de Clay, Samantha dirigiu-se  porta, lutando para retomar o auto controle, que ameaava escapar-lhe.
Ficou ainda mais nervosa quando, ao abrir a porta, deparou com a sra. Lindson, que anunciou:
Alex se machucou e preciso lev-lo ao mdico. Trouxe Jess para ficar com voc. Desculpe, mas no tenho outra alternativa.
Ao lado da mulher, Jess e o pequeno Alex pareciam muito assustados. Este ltimo, plido e choroso, tinha um hematoma azulado na testa.
	Jess no teve nada a ver com isso	a sra. Lindson
apressou-se a esclarecer.  Agora, tenho de ir. Depois conversaremos com calma, est bem?  E afastou-se a passos largos, levando o filho pela mo.
Finalmente havia acontecido, Samantha pensou, preparando-se para o pior. Ela planejara tudo, cuidadosamente, para evitar que Clay se encontrasse com o menino. E a vida, uma vez mais, pregara-lhe uma pea.
	O que aconteceu, Sami?
A voz grave de Clay veio da sala, como um terrvel prenncio. No instante seguinte ele j estava no hall, olhando interrogativamente para Jess.
Num gesto instintivo de proteo, Samantha atraiu o menino para si, dizendo:
	No fique assustado, querido. Alex vai ficar bem.
	Ele caiu...  Jess balbuciou.
	Aconteceu algum acidente?  Glay perguntou, preocupado.  O filho da vizinha machucou a cabea e ela o levou ao mdico  Samantha explicou.
	Se precisar de meus prstimos...  ele ofereceu.
	Agradeo, mas creio que no ser necessrio.
	Certo...
Aparentemente, Clay no havia se dado conta do grau de envolvimento entre Jess e ela, Samantha pensou, com sbita esperana.
As aparncias indicavam apenas que uma vizinha assustada havia deixado um de seus filhos com ela, enquanto socorria o outro, acidentado. E Samantha decidiu aproveitar aquela oportunidade.
	Entre, Jess  disse ao garoto, num tom carinhoso.  Tenho um bolo de chocolate sobre a mesa da cozinha e vou lhe dar um pedao.
	Oba! Quero ver este bolo...
O menino passou correndo por Clay, que acariciou-lhe os cabelos negros, to parecidos com os seus, sem suspeitar de nada.
	Acho melhor voc ir, agora  Samantha sugeriu, num tom amvel, mas firme.  Tenho que dar ateno a Jess... Voc entende, no?
	Lgico.  E Clay saiu, depois de fit-la com intensidade, como se quisesse dizer, com os olhos, o que nenhuma palavra poderia.
Inundada por uma onda de alvio, Samantha deixou escapar, do peito, um profundo suspiro. Naquele momento, Jess gritou, da cozinha:
	Peguei um pedao de bolo, mame! Um pedao! Puxa, est uma delcia, mame!
A voz aguda do menino parecia flutuar pela sala e pelo hall, atravessando o espao da porta ainda aberta e ganhando a rua.
Lvida, Samantha apurou os ouvidos, na esperana de ouvir o som do motor do carro de Clay. Mas apenas o silncio seguiu-se aps o grito alegre do menino..
Temerosa, ela saiu na varanda, para verificar se os vidros do carro estavam fechados. Era sua ltima chance.
Sentado ao volante, com o rosto petrificado, Clay olhava diretamente para ela. No havia vidros entre ambos. Apenas um olhar cheio de espanto e dor.
Samantha tentou esboar um gesto, mas ele deu a partida e arrancou, desaparecendo na distncia.
Clay Ellis dirigia seu reluzente BMW numa velocidade mdia. Era um piloto hbil e sentia grande prazer em dominar aquela mquina perfeita, fruto da mais alta tecnologia, pelas auto-pistas bem sinalizadas e de trnsito rpido. Mas no gostava de dirigir velozmente. Achava isso um risco intil, uma tolice que muitas vezes custava caro aos motoristas imprudentes.
Clay conhecia muito bem os arredores de San Francisco. Por isso, no precisava das placas de sinalizao, para orientar-se.
De qualquer maneira, no estava indo a lugar algum. Apenas dirigia, escolhendo ao acaso esta ou aquela estrada, sentindo o ronronar tranquilo do motor possante, enquanto sua mente e seu corao absorviam o golpe recebido.
Mesmo agora, podia ouvir a voz daquele belo menino, chegando a seus ouvidos com surpreendente nitidez. Podia sentir a palavra mame vibrando em cada partcula de seu ser, ainda em estado de choque.
No restava dvida. O menino chamara Samantha de mame. E ento Clay sentira que a vida perdia, de repente, o significado.
 Estamos nos anos noventa, Clay Ellis  repreendeu-se, inutilmente.  Hoje em dia as mulheres no precisam, necessariamente, de se casar para ter filhos.
Ele ouvia a prpria voz dentro do espao confortvel do carro... E ela lhe parecia estranha, sem sentido.
Em vo Clay listava, na mente, as mes solteiras que conhecera nos ltimos anos. Algumas eram admirveis lutadoras, que venciam as dificuldades para criar seus filhos, tornando-se um exemplo vivo de fora e determinao.
Mas o fato era que Samantha no se encaixava naquele contexto... E isso o deixava confuso.
Clay sabia que estava atravessando um momento difcil. Como muitos homens, julgava-se liberal e compreendia muito bem a opo de uma mulher livre, que decidisse ser me por conta prpria, sem os laos do matrimnio.
Tratava-se de uma opo perfeitamente vlida, que merecia todo o respeito.
Mas saber disso em nada diminua a dor e a perplexidade que ele agora experimentava.
A verdade era que, por longos anos, considerara Samantha Adamson como sua mulher. Mesmo depois que ela partira, sem a menor explicao, ele continuara a projetar sonhos e acalentar iluses sobre ambos.
Ainda naquele momento, sua mente procurava uma maneira de minimizar o fato chocante de que a mulher amada havia se entregado a outro homem, e dele tivera um filho.
Uma onda de amargura distorceu-lhe o rosto, transformando-o numa mscara trgica.
Clay lembrava, em todos os detalhes, da ltima, noite que estivera com Samantha, antes de ela fugir para San Francisco, abandonando-o sem qualquer explicao.
Estavam ambos na casa modesta que ela havia alugado para si e para Vicky.
Sentados na sala, ouviam msica e conversavam sobre amenidades. Vicky havia sado com um grupo de amigas. E ele acalentava a esperana de que aquela noite seria diferente das outras, que sempre terminavam com beijos ardentes e recusas radicais.
As carcias que ambos trocavam iam se tornando mais ousadas. Com a pacincia de um ourives, ele conduzia Samantha a um estgio de excitao do qual seria impossvel voltar, sem antes chegar ao objetivo mgico do amor.
Sim... Aquela noite seria diferente, ele se dizia, enquanto suas mos e lbios arrancavam suspiros da mulher amada, que h tanto tempo negava-se s exigncias da paixo.
	Clay...  ela murmurara, abrindo-se como uma flor ao sol.
	Sami, querida... Deixe-me faz-la feliz. Esta noite ser o princpio de uma nova vida para ns dois.
Algo nos olhos de Samantha avisara-o de que novamente ela tentaria se recusar. Era como se cedesse a um sortilgio, que parecia ter o poder de afast-la dele, irremediavelmente.
Clay sabia que tinha de lutar contra aquela fora, que conhecia muito bem, embora no soubesse de onde vinha. Vagamente, julgava que a morte violenta dos pais de Samantha e Vicky tinham tudo a ver com aquela rejeio anormal. Sabia tambm, dos traumas de rejeio que ela carregava dentro de si. Pois nem todas as famlias que a haviam abrigado a tinham tratado com o devido carinho. Ao menos era assim que Samantha dizia.
Talvez por isso, numa tentativa de traz-la para seu mundo pleno de amor e esperana ele dissera docemente:
	No h nada de errado no que estamos fazendo, Sami.
No existiria vida humana sobre a terra, se as pessoas no se amassem fisicamente.
Ela permanecera em silncio e ele prosseguira, com veemncia:
	Quero filhos, minha querida... Crianas normais e felizes correndo pela casa, protegidas e saudveis... Filhos seus e meus, gerados pelo nosso amor, que  to puro.
Ainda que vivesse mil anos, Clay jamais se esqueceria da reao de Samantha, diante daquelas palavras sensatas e doces, que ele extrara do fundo de sua alma ardente.
	No estou preparada para ter filhos  ela sentenciara, com uma estranha voz. Desvencilhara-se de seus braos e caminhara em direo ao banheiro, de onde sara mais tarde, banhada e vestida, comportando-se com muita naturalidade. 
No dia seguinte, Samantha desaparecera da cidade. E s muito tempo depois ele soubera, por Vicky, que ela estava em San Francisco, cursando Jornalismo.
O BMW corria dentro da noite estrelada, levando um homem e seu desespero.
Vrias horas haviam se passado, desde que Clay deixara a casa de Samantha. Um princpio de cansao comeava a invadi-lo.
Avistou as luzes de um posto de gasolina  esquerda da pista e sinalizou para entrar. Precisava de um estimulante e de abastecer o carro.
Diante de uma xcara de caf fumegante, ele ainda trazia no rosto uma expresso de perplexidade e desalento.
A realidade, difcil de ser aceita, desenhava-se clara em sua mente.
Samantha Adamson, a mulher que amara acima de todas as coisas, recusara-se a ele para entregar-se a outro homem. E dessa unio nascera um filho.
A verdade era cruel... Mas ele teria de conviver com ela, e quanto antes fizesse isso, melhor.
Samantha vira Clay afastar-se, com a sensao de um desastre iminente. Seus cuidados para manter Jess longe de casa de nada haviam adiantado. O destino resolvera mostrar sua face mais cruel.
Longe de imaginar o que se passava, Jess consolava-se do susto que sofrera na casa dos Lindson, com um segundo pedao de bolo.
	Quero mais  pediu, com um sorriso gracioso.
	S depois do jantar  Samantha sentenciou, imprimindo  voz uma calma que no possua.  Agora v tomar banho e trocar de roupa.
	Est bem.
O carter dcil de Jess nada tinha a ver com Clay Ellis, Samantha pensou, sorrindo intimamente. O gnio fcil, o sorriso constante no rostinho corado, eram caractersticas dos Adamson... Ou melhor: de Vicky, que sempre fora to alegre. Quanto a ela prpria, bem... nunca tivera muito tempo para sorrir.
Sua curta infncia terminara com a morte dos pais. E ela pouco se lembrava de momentos doces, ou felizes. Se existira um prazer em sua vida, fora ver Vicky crescer, alegre e sempre entusiasmada com as menores coisas, inconsciente da maldade humana, dos horrores do mundo.
Samantha ergueu as sobrancelhas, concluindo que no estava sendo justa com o passado. Afinal, sua vida no se resumira apenas em Vicky, mas tambm em Clay, o rapaz mais bonito do colgio, sempre atencioso, gentil e prestativo...
Certo dia ele a convidara para ser sua parceira no piquenique anual do colgio.
Ela, que sempre recusava qualquer tentativa de aproximao por parte dos rapazes, no conseguira recusar o pedido. Afinal, os olhos negros de Clay eram to puros... E, assim, surpresa consigo mesma, ela aceitara o convite.
A partir dali iniciara-se o perodo mais feliz de sua vida. Ela e Clay tornaram-se inseparveis e o mundo ganhara uma nova dimenso.
Aos poucos, fora deixando de sentir o peso da solido, que carregara como um fardo, por tanto tempo. Clay a ajudava a vencer os momentos de desespero e medo. Ele era o amigo e o irmo que nunca tivera, o cavaleiro andante, que a salvava de todos os perigos...
Samantha agora sabia que a paixo entre ambos fora inevitvel. Mas, na poca ela recebera aquela revelao como um castigo dos cus. E lutara desesperadamente para neg-la.
Clay era um rapaz normal, apenas com uma sensibilidade maior que os demais. Entregara-se  atrao que sentia por ela, com a naturalidade esperada de um jovem sem grandes problemas. Certamente no podia imaginar o quanto a magoava, quando falava do futuro, planejando uma famlia de muitos filhos, um lar convencional e romntico.
Nessas horas, Samantha fingia-se desinteressada, enquanto seu corao se contorcia em desespero.
O tempo ia passando e ela j no podia negar seus sentimentos por Clay Ellis. Por mais que se policiasse, acabava sempre se traindo com um olhar, uma cena de cime, ou at mesmo uma lgrima sentida.
Essas manifestaes descontroladas eram recebidas, por Clay, como presentes divinos... Samantha recordou-se, com um sorriso triste. Agora podia compreender que Clay via, naquelas cenas de cime, a confirmao de que era correspondido em seu amor. Pois queixava-se muito quando ela recusava suas carcias mais ousadas, acusando-a de no am-lo de verdade.
Era previsvel que um dia ambos chegassem a um impasse. Isso ocorrera na noite em que Vicky sara com algumas amigas, deixando-os a ss, na casa recentemente alugada.
Samantha estava frgil e deixara-se conduzir, por Clay, a um alto estado de excitao. Se no fossem as palavras que ele pronunciara de modo to doce, a respeito dos filhos que viriam no futuro, ela teria se entregado. E ento seu segredo seria descoberto por Clay... que sofreria duramente, a ponto de talvez nunca mais se recuperar.
S lhe restara um sada: partir, como uma fugitiva. E quando, tempos depois, aceitara receber notcias de Clay, fora para saber que ele desposara Vicky.
Abandonando aquelas tristes recordaes, Samantha subiu ao pavimento superior da casa, para ver se Jess j havia se banhado e vestido adequadamente.
Encontrou-o no quarto, diante do armrio, indeciso sobre quais roupas deveria vestir, naquela bela noite de vero.
Inundada por uma onda de ternura, Samantha tomou-o nos braos e beijou-o repetidas vezes. Aquela criana era parte de Clay... O nico amor de sua vida.
	O que voc tem, mame?  Jess estranhou, no os beijos, mas a ansiedade que a dominava.
	Oh, nada, meu bem.  Samantha colocou-o no cho e ento ajudou-o a escolher um conjunto de malha, para vestir.
 Eu j lhe disse que te amo, Jess?
	Sim, mame  o menino respondeu, com a inocncia plena das crianas.  Eu tambm amo voc... mais do que tudo no mundo.
Samantha sorriu. Aquele era o maior presente que poderia receber, em meio a tantas recordaes e sofrimento.

CAPITULO III

Clay estava a caminho de casa, usando a rota Cajon Pass que o levaria a Victorville, onde residia temporariamente, quando decidiu voltar e conversar com Samantha.
Tinha um carter de homem forte e objetivo. Era um homem claro consigo mesmo e por isso sabia que no teria paz, enquanto no dissesse a ela tudo o que lhe ia por dentro.
Assim, trinta minutos depois, ele estacionava seu BMW prateado na rua principal do bairro de Cheney, em frente  casa de Samantha.
Consultando o relgio no painel, Clay constatou que passava das dez horas. E por um momento pensou em voltar atrs.
As luzes acesas da sala e do piso superior o convenceram de que Samantha ainda estava acordada. Decidido, ele desceu do carro e tocou a campainha. Em poucos instantes, Samantha o atendia.
	Voc por aqui, a esta hora?
Ela usava um penhoar azul, quase transparente, sobre um pijama branco, de seda. Os cabelos estavam escovados e, o rosto, lavado e fresco, sem nenhum trao de maquiagem.
	Vim para lhe fazer uma pergunta  ele disse, de um s flego.  Por que voc fez isso?
	Do que voc est falando?  ela indagou, friamente.
Clay no havia dirigido toda aquela distncia para praticar jogos de palavras. E por isso retrucou, num tom agressivo:
	Voc me fez acreditar que pretendia permanecer solteira, para desenvolver sua carreira profissional, sem nenhum tipo de entrave... E depois entregou-se a outro homem, engravidou e teve um filho. Por qu?
	Eu poderia dizer que isso no  da sua conta.
	Mas no vai. Voc sabe muito bem que me deve uma explicao.
Samantha no respondeu. Apenas encarou-o, com uma expresso de desafio.
Clay estava  beira do desespero e no tencionava ceder, quela altura.
	Eu lhe entreguei o que tinha de melhor e mais belo, em minha vida  disse, lentamente.  Dei-lhe meu amor, a perspectiva de ter um lar, filhos... Enfim, ofereci tudo o que umhomem pode dar a uma mulher.
J no havia agressividade nas palavras de Clay. Apenas dor e desamparo.
Samantha sentiu-se fraquejar, diante de tanto sofrimento. Seus olhos encheram-se de lgrimas, que ela tentou ocultar, passando por ele e caminhando pela varanda mergulhada na penumbra. S ento disse:
	Procure ver as coisas com mais naturalidade. Voc est sofrendo por algo que no tem mais remdio. Simplesmente aconteceu e agora Jess existe.
	Naturalidade?  Clay repetiu, amargamente, apoiando-se ao batente da porta.  Creio que temos conceitos diferentes, a respeito desta palavra. Para mim, seria muito natural que voc me dissesse o nome do pai da criana. Eu o conheo?
	No vou responder esta pergunta.
	Eu j imaginava que voc diria isso  ele comentou, com um misto de mgoa e ironia  Talvez voc nem o conhea direito.
	Vou ignorar o tom ofensivo de suas palavras. Apenas, quero que voc saiba que est redondamente enganado. Conheo muito bem o pai de Jess.
	E voc o ama?
A estava o momento crucial da conversa, Samantha pensou, com o corao aos saltos. Tinha que se decidir. A ideia de mentir parecia-lhe repulsiva. Mas, por outro lado, ela precisava afastar Clay de sua vida, de modo definitivo. 
Assim, disse a verdade, mesmo sabendo que Clay no a entenderia:
	Sim... Amei e continuo amando o pai de Jess.
Clay encostou-se na porta, como se de repente precisasse apoiar-se em algo, para no cair. Um gemido brotou-lhe da garganta, denunciando a dor que o dilacerava.
Samantha compreendeu que havia acertado o alvo, ferindo profundamente o homem que tanto amava. Agora, queria apenas que ele partisse e a deixasse em paz com suas mgoas e tristezas.
Clay sentia-se fraco, impotente diante da cruel realidade. Por anos seguidos, aceitara a relao insatisfatria com Samantha, por julgar-se correspondido em seus sentimentos. Ela era uma pessoa complicada, com srios traumas de infncia. Mas isso o ensinara a ser mais compreensivo. Amava-a, tal como era, e acreditava ser retribudo, em seu afeto.
O tempo havia passado e agora ele se perguntava se no teria se equivocado...
Uma ideia, gerada pela frustrao e a dor que sentia, acorreu-lhe  mente com a velocidade de um raio.
Sempre se relacionara com Samantha de maneira delicada, respeitando sua individualidade, seus temores, sua timidez... Tudo isso para qu? Para depois ela se apaixonar por outro homem, que talvez tivesse sido mais direto e objetivo com seus desejos?
Talvez ela o achasse desinteressante e tolo, com seu discurso romntico sobre o casamento e filhos.
Desconhecendo o que ia na mente do homem ferido, Samantha quis encerrar aquele assunto doloroso. Passando por Clay, voltou para dentro da casa e disse,  guisa de despedida:
	Creio que j fomos longe demais, com esta conversa. Agora vou dormir e aconselho voc a fazer o mesmo.
	Eu farei, sim... mas s depois disto.
Num gesto despido de qualquer sentimento, a no ser raiva e frustrao, ele tomou-a nos braos e beijou-a com furor, enquanto suas mos exploravam ansiosamente o corpo que sempre desejara, sem jamais ter possudo.
Samantha sentiu o horror da noite em que fora forada pelo pai circunstancial... Em meio ao medo e  confuso, ela no conseguia acreditar que Clay estivesse agindo daquela maneira. No ele, que sempre fora um cavalheiro, em todos os sentidos. No o homem que lhe mostrara que o ser masculino poderia inspirar confiana, poderia amar de modo digno e correto.
	Clay, pelo amor de Deus...  disse, numa exclamao abafada, desvencilhando-se daquele assdio brutal e sem sentido.
	 assim que voc gosta, no?
Samantha fixou aquele rosto contrado pelo sofrimento, entendendo que ela era a nica culpada de haver transformado o mais gentil dos homens numa besta fera.
Com a fora sobrenatural vinda do desespero, ela o empurrou e bateu a porta com violncia.
Sem fora para subir at o quarto, deixou-se cair no tapete, soluando alto.
Do lado de fora, alucinado e j arrependido da loucura que acabava de cometer, Clay ouvia o choro sentido da mulher que amava, sem nada poder fazer para consol-la.
Cerrando os punhos para deter o dio que sentia por si mesmo, naquele momento, ele correu para o carro e partiu.
Samantha chorou at se sentir totalmente esgotada. Por fim, o sono veio colh-la, em plena madrugada.
S quando as primeiras luzes do dia iluminaram os vidros da janela, ela conseguiu subir para o quarto e atirar-se na cama, para inevitavelmente recordar todos os detalhes daquela noite infeliz.
"Como  terrvel acordar, no dia seguinte ao que se cometeu uma idiotice", pensou Clay Ellis, ao despertar em sua cama turca, de frente para a janela do quarto.
A sensao de culpa era a pior das ressacas. E ele conhecia muito bem aquele estado de esprito.
Aos trinta e dois anos de idade, j era um homem experiente e conhecia bastante bem a si mesmo, para saber que seria intil tentar se enganar.
Tinha agido por impulso, num momento de desequilbrio. E o resultado, como no poderia deixar de ser, fora desastroso.
Ofendera Samantha Adamson afastando-a mais ainda de si, talvez de uma forma definitiva.
Os raios de sol entravam pela ampla janela, incidindo sobre seu rosto cansado. A ausncia de uma cortina era proposital, pois Clay gostava de acordar com o canto dos pssaros e as primeiras luzes do dia. Tinha, tambm, prazer em preparar seu caf da manh, enquanto a mente entorpecida pelo sono ia ganhando agilidade, definindo os passos de mais um dia de vida e trabalho.
Formado em arquitetura, e com algum capital proveniente de sua famlia, Clay Ellis tinha seu prprio negcio, no ramo da construo civil. Estava crescendo e j atingira um bom nvel financeiro.
Seu carter romntico reservava-se apenas a questes sentimentais, pois nos negcios era arguto e implacvel.
Fruto de uma gerao extremamente competitiva, acreditava na capacidade individual, no gosto desenvolvido, na cultura, informao e... na sorte, que julgava to necessria quanto todo o resto.
Belo, inteligente, simptico e seguro de si, Clay atraa as mulheres com facilidade. Mas sabia que seu nvel de vida, contava muito, na impresso que lhes causava. E isso o desagradava bastante.
No que fosse excessivamente moralista ou puritano. Mas achava que uma mulher interesseira seria, tambm, pobre de esprito e de inteligncia. E que jamais saberia amar verdadeiramente.
Casara-se com Vicky numa poca obscura, no somente porque ela era uma jovem alegre, de carter leve, mas tambm porque lembrava-lhe Samantha. O quanto se arrependera, depois, ele mesmo no saberia dizer ao certo.
Agora, era um solteiro convicto e vez por outra envolvia-se em relaes superficiais, com mulheres que logo o faziam perder o interesse.
Rever Samantha, depois de todos aqueles anos, causara-lhe uma verdadeira avalanche de emoes. E agora ele estava sofrendo... como alis era de se esperar.
Afastando aqueles pensamentos tristes, Clay preparou o desjejum e alimentou-se, apesar de no ter o menor apetite. Pouco depois, saa para o trabalho, concentrando todas as energias de que dispunha para se concentrar nas questes profissionais, que no eram poucas.
Quando a noite chegou, junto com o cansao, Clay voltou para a bela casa que havia projetado e construdo, em Victorville.
No pensava em companhia humana. Uma ducha forte, um drinque, uma pea de Ravel no aparelho de som... era tudo o que necessitava, para relaxar um pouco.
E foram esses pequenos prazeres que desfrutou, ao chegar em casa. Com a mente mais calma e o corao menos dolorido, refletiu longamente sobre o problema que tanto o abalava.
De algum modo ele sabia que toda boa resposta dependia de uma boa pergunta... E era isso que buscava, na calma de seu lar to solitrio quanto aconchegante.
Por volta de dez horas, ele se ergueu do confortvel sof onde havia se acomodado, com uma soluo em mente. No se tratava de nada definitivo, ou grandioso... mas j era um passo para sair da depresso em que se encontrava.
Em primeiro lugar, iria se desculpar com Samantha. Esse seria o primeiro passo. O segundo, bem mais difcil, seria ficar ao lado dela o maior tempo possvel, at convenc-la de seu amor.
Filosoficamente, ele acreditava que a situao entre ambos no poderia ficar pior do que j estava. Portanto, estava disposto a tentar uma aproximao, embora j pudesse prever o quanto isso lhe custaria. Se tinha uma chance, iria lutar por ela.
O motivo dessa deciso era simples e claro: sem Samantha, a vida no tinha o menor sentido.
Triste, mas disposto a lutar pelo que acreditava, Clay foi para cama e, contra todas suas expectativas, adormeceu de imediato.
Samantha havia mergulhado numa depresso profunda, como h muito no acontecia.
O mundo a seu redor havia se organizado, de maneira progressiva e satisfatria, desde a entrada de Jess em sua vida.
To logo a criana chegara, Samantha descobrira que viver no era apenas uma sucesso de dias profissionalmente ativos e noites de profundo marasmo, com fins de semana e feriados tediosos que custavam a passar... Ao contrrio: viver era maravilhoso. 
Para as poucas pessoas com quem mantinha uma relacionamento mais prximo, Jess era seu filho. E Samantha acostumara-se com a ideia a ponto de, s vezes, esquecer a verdade: a de que o menino era seu sobrinho, filho de Vicky e Clay,
Ligada ao menino por laos sanguneos, atravs da irm, e por uma forte afetividade, atravs de Clay, Samantha achava natural que ele a chamasse de me.
Vicky nunca quisera aquela gravidez, que resultara em Jess. Considerara-a um acidente, ocorrido j no final do casamento conturbado e polmico entre ela e Clay. Acidente que, alis, ele ignorava.
No fosse Samantha, inflexvel e objetiva, assumindo todas as responsabilidades materiais e emocionais do caso, Jess no existiria.
Nada mais justo, portanto, que ela o criasse, assumindo a maternidade indesejada por Vicky e ignorada pelo pai.
Tudo, no mundo de Samantha, havia adquirido uma estabilidade desejvel... at a chegada de Clay.
Procurando Vicky, para tratar de um assunto que mantinha em segredo, ele viera tocar numa verdade escondida, que ainda desconhecia. Sua presena era uma ameaa constante ao mundo que Samantha construra cuidadosamente, dia aps dia, hora aps hora, desde que se tornara me do pequeno Jess.
Ansioso por uma relao estvel, uma famlia e um lar, o que Clay Ellis faria, se soubesse que Jess era seu filho?
A pergunta era fcil de ser respondida, ao menos para Samantha, que o conhecia to bem: Clay entraria na justia, reclamando a posse do menino, fazendo desmoronar o mundo que ela criara para si.
Todas essas consideraes, porm, no anulavam o fato de que ela amava Clay, como sempre o fizera.
Esse amor podia transformar-e, de sbito, em fulminante paixo, dependendo do modo como ele a tocasse...
Mas ela tambm sentia admirao e respeito por aquele homem. E por isso no podia simplesmente ignorar-lhe o sofrimento, afastando-o como a um objeto incmodo e indesejado.
Alm do mais, ela sabia que fora a causa indireta do casamento desastroso entre ele e Vicky... Isso tambm lhe pesava na conscincia.
Naquela noite, ao colocar Jess na cama, Samantha resolveu que, por mais arriscado que fosse, aceitaria a aproximao de Clay, se ele insistisse. Devia isto a ele.
Assim que tomou essa deciso, Samantha foi invadida por uma sensao de paz. Pois, no fundo, detestava o papel que se obrigara a representar, naqueles duros encontros com Clay. E no pretendia continuar assim.
Dali por diante, os cuidados deveriam ser redobrados. Ela teria de vigiar as prprias emoes, como a um animal perigoso prestes a atacar. Mas valeria a pena, disse corajosamente para si... Nem que fosse apenas para ver Clay sorrir de vez em quando.
Dois dias se passaram entre a deciso e a ao de Clay Ellis.
Estava no canteiro de obras, revisando a planta da ala oeste de um supermercado que estava construindo a toque de caixa, quando resolveu que no esperaria nem mais um minuto para pr sua resoluo em prtica.
Passando o comando da obra a um tcnico de confiana, ele entrou no carro e dirigiu-se ao bairro de Cheyne. Parou apenas para entrar numa floricultura e depois retomou o trajeto.
Encontrou Samantha no jardim, plantando algumas mudas de roseiras. Um chapu gracioso, de palha, protegia-lhe o rosto dos fortes raios de sol. Ao v-lo aproximar-se, Samantha tirou o chapu. Seus olhos azuis recaram sobre o presente que ele lhe trazia.
	Pensei em oferecer-lhe um grande buque de rosas vermelhas, mas desisti da ideia, devido aos espinhos  disse Clay, com naturalidade, entregando-lhe as flores que havia comprado.
	Essa eu no entendi --- disse, aceitando o presente.
	 que voc poderia atirar as rosas em meu rosto, dependendo do estado de esprito em que se encontrasse.  Clay sorriu, maroto, exibindo dentes perfeitos.  E eu no queria arriscar-me...
	At que no seria ideia  Samantha retrucou, no mesmo tom.  Voc bem que merecia. Mas no vou estragar as flores. Elas no so culpadas da estupidez dos homens.
	Samantha, estou tentando me desculpar  ele declarou, num tom srio.
	E eu estou aceitando as desculpas, Clay. Ser que no percebeu isso?
Uma expresso de alvio instalou-se no rosto de traos perfeitos do homem a sua frente. E Samantha sentiu que sua deciso tinha valido a pena, apesar de lhe custar tanto.
	Bem...  Ele voltava a sorrir.  Se  assim, por que no me oferece um copo de refresco? Faz calor e eu estou sedento.
	Certo  ela concordou, de imediato.  Vamos entrar. Prepararei uma limonada, que tal?
Ele estacou, diante da lembrana que veio-lhe  mente, com a rapidez de um raio.
	Se no se importa, prefiro ch gelado com limo  disse, rpido.  Suas limonadas ficaram famosas...
	Santo Deus!  Samantha exclamou, divertida.  O tempo passa e as pessoas no esquecem. E verdade que um dia, h muito tempo, calculei mal a quantidade de acar, numa limonada. Aconteceu somente uma vez, mas parece que vou pagar por isso pelo resto da vida.
	No me leve a mal, Sami. Esta  apenas uma maneira carinhosa de recordar o passado.
	Verdade?  ela perguntou, com uma expresso exageradamente severa.
	Acredite...
	Ento prove, aceitando uma limonada  ela o desafiou.
Clay riu, pensando que ser recebido por Samantha, daquela maneira, era quase um milagre... Principalmente depois do modo como ele havia se comportado, na ltima vez em que a vira.
Sentia-se nas nuvens e no sabia a que deveria atribuir aquela mudana benfica no comportamento da mulher que tanto amava. Mas no estava nem um pouco preocupado com isso. S queria desfrutar daqueles momentos, sem questiona-mentos, sem perturbaes.
	Aceito  disse, por fim.  Mas s se voc me deixar espremer os limes.
	Combinado.
A cozinha da casa de Samantha era ampla e bem iluminada. 
Uma grande mesa de madeira macia estendia-se ao longo de uma das paredes laterais. O balco da pia era de granito cinza-chumbo, to belo quanto funcional.
Num agradvel silncio, pleno de recordaes de um tempo em que tinham sido felizes, Samantha e Clay comearam a preparar a limonada.
	Onde est o menino?  ele perguntou, a certa altura.
	Jess?
	Sim.
	No quintal dos fundos, brincando com seus carrinhos.
	 uma linda criana. Voc tem sorte.
	Concordo plenamente. Ei, espere... Quantos litros de limonada voc pretende fazer?
	Uma jarra.
	Ento, j chega de espremer limes, homem. Voc quer azedar o dia?
	Por nada desse mundo  ele respondeu, com toda a sinceridade.  Mas acho que, s com esses limes, a limonada vai ficar fraca, sem gosto.
	Deixe comigo.
Despejando o sumo dos limes sobre os cubos de gelo que tinha acabado de colocar numa jarra, Samantha acrescentou o acar, depois, a gua.
Clay acompanhava-lhe os movimentos com um olhar sonhador. Encostado na pia, os braos cruzados numa atitude relaxada e feliz, ele sentia-se em paz, pela primeira vez, depois de vrios dias.
Tudo se encaixava perfeitamente, na presena de Samantha, ele constatou, como j fizera tantas vezes. Ela parecia ter o incrvel poder de dar um rico sentido  vida, ao mundo em geral.
O tempo corria. At mesmo os menores e mais insignificantes gestos assumiam um valor nico, de rara preciosidade, naquela tarde especial.
A felicidade, Clay pensou, era isso: estar com quem se ama, dividindo at mesmo os menores detalhes do cotidiano. Os grandes fatos, como nascimentos, promoes, doenas e mortes, eram apenas pontos que dividiam a beleza de se estar vivo.
Quero ser o primeiro a provar  ele declarou, num tom casual, disfarando a emoo.
Samantha serviu um copo alto, de fino cristal, e ofereceu-o a Clay, que sorveu a bebida em pequenos goles.
	Que tal?  ela perguntou.
	Razovel... Sem muito gosto, tal como eu previa  ele respondeu, sincero.
	Deixe-me provar.
Num gesto espontneo e natural, Samantha tomou-lhe o copo levou-o aos lbios, sorvendo o lquido lentamente.
	E ento?
	Voc estava certo. m limo a mais e ficar perfeita.
Mas deixe-me cuidar disso.
E Samantha cortou mais um limo ao meio, espremendo-o com toda a fora de seus dedos delicados.
Uma careta de dor cruzou-lhe o rosto expressivo, enquanto ela jogava o bagao dos limes na lixeira, para em seguida lavar vigorosamente as mos.
	O que foi?  Clay no pde deixar de perguntar.
	Nada. Uma escoriao boba, na palma da mo direita.
	Deixe-me ver.
Ela obedeceu. E ento Clay observou, atentamente, a marca avermelhada que envolvia um pequeno corte.
	Como aconteceu isto?
	Eu estava consertando o caramancho, l no quintal, e me feri com a madeira.
	Caramancho?  ele perguntou, surpreso.
	Sim. Trata-se de uma velha videira, que neste ano est pondo cachos esplndidos  ela respondeu, com entusiasmo, antes de explicar:  A madeira apodreceu com o tempo. E eu estava tentando consertar.
	Voc tem as ferramentas necessrias?
	Sim, e tambm a madeira. Mas nem pense em...
	Voc sabe que sou muito bom nesses pequenos servios  ele argumentou, naquele tom ao qual era impossvel dizer no.  Alm do mais, preciso pagar pela limonada.
Samantha meneou a cabea, num gesto de negao. Mas seus olhos j haviam concordado com a ideia.
	Escute aqui, Clay Ellis...  disse, num tom exageradamente rspido, que soava cmico.  Voc no tem mais nada o que fazer, na vida?
	Assim, to urgente, no  ele afirmou, com um sorriso que parecia tornar a tarde ainda mais luminosa.  Afinal, o vero j vai adiantado. E queremos experimentar as uvas dessa videira, no  mesmo?
	Adiantaria se eu dissesse no?
Ele meneou a cabea, significativamente.
	Eu sabia  disse Sarnantha.  Voc no muda, mesmo.
 Aps uma pausa, indagou:  Mas diga-me, como vai seu trabalho?
	No posso me queixar. Tenho uma equipe de primeira linha e uma certa reputao  ele respondeu, com modstia. 
	E o fato de voc estar procurando Vicky... tem algo a ver com seu trabalho?
	Sim.  A surpresa estampou-se no rosto de Clay.  Como voc chegou a esta concluso?
	Ora... Voc sempre foi muito prtico, no  mesmo, Clay?
	De fato.  E ele decidiu revelar o assunto:  Vicky  dona da metade de um grande terreno, onde pretendo construir um shopping.  algo urgente.
	E quanto  outra metade?
	E minha. Recebi a propriedade como herana de meus pais. E dividi-a com Vicky, ao concluir o divrcio. Quero comprar a parte dela, antes que outro o faa.
	Entendo.
O silncio caiu entre ambos. Clay suspirou, profundamente. Esperava que Samantha, agora a par das razes que o haviam levado a procurar Vicky, se dispusesse a ajud-lo. Ela, porm, nada disse.
O silncio comeava a se tornar incmodo, quando um grito agudo, seguido de um choro, chegou at ambos, vindo do fundo da propriedade.
Antes que pudesse esboar qualquer reao, Clay viu Samantha correr para a porta dos fundos e ganhar o quintal, numa velocidade espantosa.
A passos largos, ele aproximou-se da porta. E teve de se afastar para dar passagem a Samantha, que voltava com o menino em prantos, no colo.
	O que aconteceu?  Clay perguntou, sobressaltado.
	Nada grave. Ele caiu e esfolou o joelho no cimento.
Colocando Jess na cadeira, Samantha correu at o banheiro e voltou logo depois, trazendo um antissptico, pomadas e bandagens.
Parecia saber muito bem o que estava fazendo, Clay pensou. Num impulso, retirou do bolso um leno imaculadamente branco e, ajoelhando-se na frente do menino, enxugou-lhe as lgrimas. Em seguida disse:
	Isto deve estar doendo muito, no ? Eu sou Clay e voc  o Jess, certo?
O menino havia parado de chorar e o encarava, surpreso. Samantha, imvel, observava a cena, com a respirao suspensa.
	Vamos fazer um trato, Jess: se voc me deixar tratar do seu joelho, sem chorar, eu o levarei para comer uma pizza. O que acha disso?
	No gosto de pizza  o garotinho protestou, soluando.
	E do que  que voc gosta?
	Sorvete. E dos grandes.
	Certo. Ento, vamos substituir a pizza por um delicioso sorvete. Posso comear?
	Vai doer?
	Vai, mas s um pouco.
	Est bem  o menino assentiu, a contragosto.
Clay voltou-se para Samantha, que j lhe estendia os remdios, enquanto evitava-lhe os olhos. Procurando em seu rosto delicado um sinal de aprovao, ou mesmo de reprovao, Clay sentiu-se confuso. Pois a expresso de Samantha era exata-mente neutra... Nem sim, nem no.
E Clay perguntou-se aonde ela teria aprendido aquele truque... Pois era bvio que no poderia estar indiferente ao fato de ele cuidar do pequeno Jess. No poderia mesmo.

CAPITULO IV

Sentados  mesa da lanchonete, Samantha, Clay e Jess formavam um belo quadro. Qualquer pessoa que os visse ali, reunidos, no pensaria duas vezes para defini-los como me, pai e filho.
A contribuio gentica dada pela famlia Adamson ao menino, atravs de Vicky, era sutil. Aparecia mais no modo dele mover a cabea lentamente de um lado para outro enquanto pensava, nas orelhas pequenas e bem coladas ao crnio, no largo distanciamento entre os olhos... Detalhes que escapariam a um observador casual ou desatento. Todo o restante vinha do pai e Samantha estava admirada, ou melhor, sobressaltada por Clay no ter ainda percebido que o menino era seu filho.
	Mas voc disse morango e no chocolate, Jess  ele explicava, pacientemente, ao garoto.
O menino meneou levemente a cabea, procurando uma forma de se explicar:
	Ento, falei errado. Quero o meu sorvete igualzinho ao seu.
	Sem problemas  Clay assentiu.  S que o meu sorvete tem cobertura de baunilha.
	Eu no gosto.
	E qual voc prefere?
Chocolate.
Clay sorriu:
	Ento, vou pedir  garonete que mande preparar um sorvete de chocolate, com cobertura de chocolate, para o menino mais valente que eu conheo.  E fez um sinal  garota que atendia  mesa, para que se aproximasse.  Por favor, moa...
Jess sorriu, encantado com aquele homem forte e muito grande, que o tratava com tanto carinho.
A simpatia entre ambos era mais do que uma simples afinidade de gnios... E somente Samantha sabia porqu.
Pouco depois, a garonete vinha trazer um segundo sorvete para Jess. Aproximou-se com um sorriso solcito e os olhos fixos em Clay, numa apreciao que no passou despercebida a Samantha.
Era de se esperar que as mulheres sentissem atrao por aquele homem, que usava a simpatia como um complemento natural da beleza fsica, por si s estonteante.
O que Samantha no sabia, porm, era que os outros homens ali presentes invejavam Clay por estar ao lado de uma mulher to bela. Disso, ela no tinha a menor conscincia.
J o mesmo no se dava com Clay. A beleza de Samantha fora uma fonte de prazer e aborrecimentos para ele, no tempo em que a namorara. Prazer quando estavam a ss... E aborrecimentos, quando em pblico.
A verdade era que ambos formavam um par que chamava a ateno. Ela, loira, de cabelos curtos, olhos azuis muito vivos contrastando com a pele de um branco acetinado no inverno e quase sempre bronzeada no vero. Ele, de tez morena, os cabelos negros sempre um pouco mais longos do que a moda exigia, os olhos como dois lagos calmos refletindo a noite escura.
	Temos batatas fritas excelentes, tambm  a garonete oferecia, solcita.
	Eu quero!  Jess afirmou, com entusiasmo.
	Sorvete com batatas fritas?  Clay riu.  Acha que essas duas coisas combinam?
	So as coisas mais gostosas do mundo  Jess sentenciou,
com sua lgica infantil.
	No  uma boa ideia  Samantha interveio e explicou:  Refiro-me s fritas.
	Por qu?  Clay perguntou, surpreso.  Que mal h numa inocente poro de batatas?
	O fato de serem fritas. No sou a favor de frituras para Jess.
	Eu quero  o menino repetiu, j sem tanto entusiasmo. 
		Deixe, Sami. Uma vez ou outra no pode fazer to mal   Clay sugeriu, num tom conciliador.
Ela nada disse, mas Clay entendeu que aquele silncio era uma concordncia a contragosto.
	Querem catchup, maionese ou vinagrete, com as batatas?
	a garonete perguntou.
	Tudo a que temos direito  Clay respondeu, sem consultar Samantha.
	Oba!  gritou Jess, com um sorriso radiante.
	A propsito...  a garonete sugeriu  no querem que eu guarde o sorvete na geladeira? Assim, vocs podero tom-lo como sobremesa.
	 uma tima ideia  Clay aprovou, com um sorriso que parecia iluminar todo o ambiente ao redor. Voltando-se para Jess, indagou:  O que voc acha disso, amigo?
	Acho bom  Jess respondeu, com simplicidade.
	Est bem.
A garonete recolheu a taa de Jess e Clay numa bandeja. Ia pegar a de Samantha, mas esta impediu-a com um gesto.
	Para mim no, obrigada. Ficarei s com o sorvete.
	Certo  a garota assentiu, gentilmente.
	Aproveite para nos trazer uma poro de queijo fresco e torradas  disse Clay.
	Temos tambm uma poro de postas de peixe, que  a especialidade da casa, senhor a garonete anunciou.  Nosso estabelecimento tornou-se famoso, por esse prato saboroso, que tem merecido bons elogios.
	Voc gosta de peixe, Jess?  Clay perguntou ao menino, num tom cmplice.
	Sim!
	Eu adoro.  Voltando-se para a garonete, Clay pediu:
	Pode mandar o peixe, senhorita.
	Certo. Deseja algum acompanhamento, senhor? Arroz, pur...
	Vocs tm tabasco?  ele a interrompeu.
	Sim. Quer que traga?
	Por favor.
A garonete anotou os pedidos e afastou-se para providenci-los. Samantha seguiu-a com os olhos, at que ela desapareceu de vista. E ento virou-se para Clay:
Tabasco e catchup...  murmurou, irritada.  Por que voc no pediu, tambm, mercrio, pesticidas e agrotxicos?
Aos menos, so venenos mais eficientes.
A gargalhada de Clay foi espontnea. E Jess, mesmo sem nada entender, o acompanhou com alegria.
Pouco depois, Clay e Jess eram servidos. E comeram com apetite.
A fama da lanchonete no era injusta. A poro de peixe estava realmente deliciosa.
Jess sentia-se no paraso e logo quis brincar no amplo play-ground que havia ao lado da lanchonete. Vrias crianas brincavam ali, sob o olhar atento dos pais, que continuavam sentados s mesas, tomando lanches ou drinques.
Logo que o menino os deixou, Samantha queixou-se:
	Gostaria que voc no interferisse na educao que tento dar a Jess. Hbitos alimentares so criados na infncia, sabe? E no quero que ele se torne um consumidor de porcarias.
	Pelo amor de Deus, Sami. Foi apenas um prato de fritas...
	Junto com este monte de produtos qumicos.  Ela apontava os molhos, ainda sobre a mesa.
Clay arregalou os olhos, numa expresso cmica, pegando o fino vidro de tabasco e trazendo-o para perto do rosto. Fingindo examin-lo, com exagerado receio,- disse:
	Quem diria que um simptico vidrinho de molho apimentado pudesse ser to perigoso...
	No tem graa nenhuma.
Clay conhecia Samantha bastante bem, para no insistir no assunto. Alm do mais, concordava em termos com a posio dela. Apenas, havia detectado, ali uma preocupao exagerada com relao  criana. E tal preocupao vinha, com certeza, da falta de experincia em ser me, o que por sinal era perfeitamente compreensvel. Preferindo respeitar Samantha nesse ponto delicado, ele mudou habilmente o rumo da conversa.
	Comp vai seu trabalho, no jornal?
	Bem. s vezes acho que esta  a nica coisa, em minha vida, que vai realmente bem  ela confidenciou, com um suspiro.
	Li sua coluna da semana passada.
Ela reagiu, surpresa.
	E o que achou, Clay?
	O artigo estava bem integrado, no contexto do jornal.
Proporcionou aquele momento de distrao e reflexo que um sujeito precisa, para encarar mais um dia de trabalho.  Ele fez uma pausa.  Pena que sua coluna no seja diria.
	Voc acha que deveria?
	Sim. Voc escreve de maneira fluente e clara. Poucas pessoas tm esse dom.
	Obrigada. E o que voc acha da forma como desenvolvo as ideias?
E ambos conversaram longamente. Um assunto conduzia a outro e, assim, falaram sobre literatura, cinema, dana, enfim, sobre as vrias manifestaes da arte, que sempre fora o tema preferido de ambos.
Clay havia se esquecido do quanto Samantha podia ser agradvel, numa boa conversa. Sentia verdadeiro prazer em observ-la, desenvolvendo uma ideia qualquer. Com os olhos semi-cerrados, mordendo levemente os lbios numa pausa de expresso, ela construa linhas de pensamento admirveis... E ficava ainda mais linda, nesses momentos.
	O que foi?  Samantha perguntou, de sbito.
Flagrando-se na contemplao da mulher a sua frente, Clay reagiu rpido:
	Creio que me distra por um momento  mentiu.  Do que era mesmo que voc estava falando?
	Deixe para l  ela resmungou, aborrecida.  No era nada importante.
	Pronto.  Ele sorriu.  Agora voc se zangou. Parece at os velhos tempos.
	Claro. Voc continua com aquela mania de se distrair, quando eu me estendo num assunto.
	Eu fazia isso?  ele perguntou, surpreso.
	Sempre  ela garantiu.
Clay riu, baixinho. Samantha no podia imaginar que ele ficava to encantado com ela, que perdia-se em sua contemplao, movido por pura admirao e desejo.
	Pronto.  Ela o encarou com desagrado.  Agora teremos uma seo de risos misteriosos... Voc s vezes consegue me aborrecer, sabia?
	Ei, vamos com calma. Estamos aqui para...
	Jess  ela o interrompeu, lanando um olhar na direo do playground.   hora de voltarmos para casa.
Decepcionado, Clay no protestou. Chamou a garonete com um gesto e pagou a conta, enquanto se perguntava quando teria outra oportunidade de ficar a ss com Samantha.
Durante o trajeto de volta, Jess manifestou sinais de cansao. E no era para menos. As emoes daquele dia tinham sido muitas.
	Quer tirar uma soneca, filho?  Samantha perguntou, carinhosamente, ao menino, quando chegaram em casa.
Jess respondeu com um gesto afirmativo de cabea. Pouco depois, dormia em sua cama, com uma expresso serena no rostinho corado.
Samantha desceu ao andar trreo da casa, mas iyio encontrou Clay. Ele no estava na sala, nem na cozinha. Teria ido embora, ela se perguntou, enquanto dirigia-se ao quintal... E l estava Clay, sem camisa, o trax exposto aos ltimos raios de sol da tarde, as calas arregaadas at as canelas, em frente  parreira.
	O que est fazendo?  ela indagou.
	J se esqueceu de que vou consertar o caramancho?
	Oh,  mesmo.
	Onde esto as ferramentas?
	Ali.  Samantha apontou para o galpo, no fundo do quintal.
Sorridente e feliz, Clay para l se dirigiu.
Samantha o acompanhou com os olhos, tomada por um misto de revolta e desejo. Tinha plena conscincia de estar sendo invadida em territrio particular... Mas no encontrava foras para reagir, sobretudo porque seus olhos se negavam a abandonar o corpo musculoso daquele homem, que ainda continuava despertando-lhe emoes bem mais poderosas do que ela gostaria de admitir.
Um arrepio de desejo venceu as ltimas resistncias de Samantha. Estava cansada de se opor ao encanto insistente e contnuo com que Clay a fascinava, com uma naturalidade exasperante.
Quando ele voltou do galpo, carregando as ferramentas e uma pequena escada, encontrou-a sentada na grama, numa posio relaxada, evidentemente disposta a v-lo trabalhar.
Sorrindo intimamente, Clay disse a si mesmo que estava fazendo progressos. Ao, menos Samantha no havia desaparecido no interior da casa, deixando-o sozinho para fazer o trabalho.
	As tbuas de sustentao parecem boas  ele sentenciou, depois de examinar o caramancho.  Mas os caibros apodreceram com a chuva.
	As ripas tambm esto soltas. Talvez seja preciso trocar algumas.
	Deixe-me ver...  mesmo, voc tem razo.
Com habilidade, Clay comeou a remover as ripas e caibros estragados, substituindo-os por novos. Havia uma segurana em seus movimentos, um ritmo interior em suas aes, que causavam em Samantha uma sensao de segurana e paz.
Era um prazer v-lo assim, entregue ao trabalho. E ela deixou-se embalar pelo som macio do serrote que vencia a resistncia da madeira, modelando-a no tamanho certo.
Depois, foi a vez de pregar cada caibro e cada ripa, no ponto correto.
O martelar contnuo naquele final da tarde, a brisa fresca que soprava, acariciando-lhe os cabelos... Tudo, naquele momento, parecia especial, Samantha pensou, experimentando uma languidez agradvel, uma vontade de fechar os olhos e deixar-se adormecer.
Mas Clay transpirava sob o sol e ento ela ofereceu, num tom gentil:
	Que tal um refresco?
	Por ora, prefiro apenas um copo de gua fresca  ele respondeu, sorrindo.
	Certo. Vou providenciar.
Na cozinha, fresca e acolhedora, Samantha encheu uma jarra com gua do filtro, colocou-a numa bandeja, com dois copos, e retornou ao quintal.
	Agora falta apenas esticar os fios de nylon  Clay anunciou, ao v-la aproximar-se.
	Arame no seria melhor?
	Arames esquentam, com o sol. A planta se ressente. O fio de nylon  mais apropriado.
	Tem razo.
Descendo da escada, Clay sorriu, satisfeito, diante do trabalho concludo:
	Viu como  simples, Sarai? Afinal, ter um homem em casa pode ser bastante til.
	Ficou muito bom.  Colocando a bandeja sobre uma pequena mesa tosca, prxima ao caramancho, Samantha encheu os copos com gua e deu um a Clay.  Havia me esquecido de como voc  hbil com ferramentas.
	Tenho outras habilidades, das quais talvez voc no se recorde...  ele afirmou, com ar maroto, encostando-se numa das tbuas de sustentao do caramancho.
Samantha percebeu o que ia acontecer, quando o caibro separou-se da viga e desceu sobre Clay. Quis gritar, mas j era tarde.
O som abafado da madeira atingindo o ombro exposto de Clay fez com que Samantha estremecesse.
	Droga!  ele exclamou.
	Clay!  ela gritou.  Voc est bem?
Contendo um palavro, ele recolheu o copo que havia cado na grama e, felizmente, no se quebrara. Entregando-o a Samantha, disse:
	Devo ter me distrado. Esqueci de pregar este caibro e quase crio um acidente.
	Ainda bem que no o atingiu na cabea  ela murmurou, plida de susto.  Deixe- me ver seu ombro.
Uma feia escoriao comeava a mostrar seus contornos arroxeados na regio atingida.
	Ei...  ele protestou  V devagar, sim? Isto di.
	Preciso examinar direito, antes que comece a inchar.
Aguente a dor, Clay, pois no h outro jeito.
Com a ponta dos dedos, Samantha tocou os nervos e ossos da regio atingida e logo concluiu, aliviada:
	No foi nada srio. Mas, se eu fosse voc, iria ao mdico agora mesmo. Afinal, nunca se sabe...
	Bobagem, Sami  ele a interrompeu, recolocando o caibro no lugar e pregando-o com fora.  Vou terminar o trabalho de uma vez.
Samantha sabia que discutir com Clay naquelas ocasies era pura perda de tempo. Assim, apenas ofereceu-lhe seu copo de gua, ainda intocado.
Tome isto. Voc vai se sentir melhor.
Ele conseguiu sorrir e bebeu, vido, o lquido fresco.
	Obrigado. Agora vou esticar os fios.
	Precisa de ajuda?
	No, obrigado.
Em pouco tempo, Clay dava o trabalho por encerrado. Depois de guardar as ferramentas e a escada no galpo, acompanhou Samantha at o interior da casa.
	Gostaria de tomar um banho  disse.  Posso?
	Lgico. Use o banheiro aqui do andar trreo. Vou providenciar uma toalha.
Clay ficou sob a ducha por um longo tempo, expondo o ombro dolorido ao forte jato de gua quente. Sentia-se melhor, quando saiu.
Samantha o aguardava, na sala.
	Sente-se aqui  ordenou, apontando-lhe uma cadeira.  Vou aplicar uma pomada  base de cnfora, no local ferido.
Com delicada preciso, ela espalhou o medicamento pela rea afetada, iniciando uma massagem suave e progressiva.
	Hum... Isto  bom  ele murmurou, voltando-se para olh-la.
	Fique quieto e no se mova.
Mas o toque sutil dos dedos de Samantha comeava a provocar um efeito inesperado em Clay, cuja respirao tornava-se mais rpida a cada momento, obedecendo ao pulsar desordenado do corao.
	Sami  ele gemeu, baixinho.
	J lhe disse para ficar quieto.
No conseguindo mais se controlar, ele voltou-se a atraiu para si. Com um movimento gil, a fez sentar-se em seu colo. E antes que ela pudesse protestar, colou os lbios aos dela, beijando-a com intenso desejo... Ento, sentiu que algo diferente estava enfim acontecendo. No havia reao contrria. Apenas correspondncia ativa e franca.
Essa constatao inundou Clay de felicidade. Mas era difcil manter-se na linha... E suas mos, como se tivessem vida prpria, comearam a explorar o corpo de Samantha.
Algo muito importante estava prestes a acontecer. E foi ento que Samantha levantou-se, cortando o fluxo perigoso do desejo.
	Sami...  ele protestou, num tom quase inaudvel.
	Acho que est na hora de voc partir, Clay Ellis.
No havia hostilidade naquelas palavras. Apenas uma firme deciso, que no poderia ser ignorada.
Respirando fundo, ele ergueu-se e vestiu a camisa.
	Mensagem recebida, milady  gracejou.  Cavaleiro Ellis batendo em retirada.
	Assim  melhor. Muito obrigada pelo passeio, o conserto do caramancho e tudo mais.  Ela relutou, antes de acrescentar:  Estive pensando em todas as nossas conversas, desde que voc resolveu aparecer de novo em minha vida.
	Sim?  Havia uma luz de esperana nos olhos de Clay.
	Vou fazer o que voc me pediu... Mas  minha maneira.
	Como assim?
	Refiro-me aos seus negcios com Vicky.
	Ah  ele assentiu, sem disfarar a decepo.
	Se quiser me trazer sua proposta e os papis para assinar, eu os levarei para ela. Naturalmente, no posso garantir o resultado, pois isto no depende de mim.
Clay considerou longamente aquelas palavras. E seu rosto assumiu uma expresso severa:
	Quer dizer que voc sabe onde Vicky est... Mentiu para mim, no foi?
	Isto no vem ao caso.
	A  que voc se engana.
	No me venha com presses, Clay  ela o alertou.  Estou tentando ajud-lo, mas posso voltar atrs.
	Faa o que quiser. Mas no aceitarei um favor condicionado a mentiras e mistrios. Passe bem, Samantha.
Ela nada respondeu. Havia falhado em sua tentativa de contemporizar a situao. Compreendia o quanto era importante, para a carreira profissional de Clay, que Vicky soubesse do interesse dele sobre o tal terreno. Mas estava presa ao segredo da paternidade de Jess e no podia agir de outra forma.
	Fiz um papel ridculo  pensou, em voz alta.  Agora,  arcar com o prejuzo.
O que Samantha no podia imaginar era a extenso daquele prejuzo.
Na estrada, dirigindo para Victorville, Clay ligou para sua secretria. Havia decidido agir por seus prprios meios, ao entender que Samantha jamais o colocaria em contato com Vicky.
	Alice? Clay falando. Voc tem a o telefone de Charles Klain?
	Voc est falando do detetive que investigou aquele caso de suborno para voc?
	O prprio.
	Preciso procurar o nmero.  urgente?
	Mais ou menos. Assim que conseguir, ligue para ele. Diga-lhe que venha me ver o mais breve possvel.
	Certo, chefe. Onde voc est?
	No carro, a caminho de casa. Por qu? Est havendo algum problema, a no escritrio?
	Fiscais da prefeitura  a secretria resumiu.  Esto aqui h horas, bisbilhotando tudo. Confesso que j estou perdendo a pacincia.
Clay no pde deixar de rir. Alice era perfeita como secretria, mas no suportava intromisso em sua rea de trabalho.
	Os fiscais s esto fazendo o que devem. Procure no se irritar, sim?
	 difcil. Vou passar horas colocando tudo no lugar.
	So ossos do ofcio, Alice. Agora, vou desligar. Ns nos veremos amanh cedo.  Fechando o celular, Clay voltou a se concentrar no problema que tanto o aborrecia.
Samantha havia mentido para ele e isso o ofendera bastante. Mas, por outro lado, ela tambm havia tentado ajud-lo. Mas tinha se esquecido de uma forte caracterstica da personalidade de Vicky.
As lembranas assaltaram Clay e ele nada fez para impedir...
Casara-se com Vicky na esperana de construir uma famlia, com algum que estimava e julgava conhecer muito bem. Alm do mais, ela no o rejeitava, nem erguia barreiras contra seus desejos mais urgentes. Fora tudo to simples e fcil... Afinal, ele estava ferido e carente. E Vicky parecia acenar-lhe com a perspectiva de um caminho plano, cercada de flores.
No demorou muito para que ele percebesse que o interesse de Vicky se concentrava mais em seu talo de cheques do que no relacionamento que mantinham.
A tolice havia sido cometida e ento s lhe restava administr-la. Com a chegada dos filhos, Vicky poderia se tornar uma esposa razovel, no muito inteligente, era verdade, mas extremamente bela e disposta a ser agradvel. Assim pensava Clay, at descobrir que ela o evitava sexualmente, em certos dias do ms. A constatao desse fato o alarmara.
Alm de ftil e interesseira, a irm caula de Samantha mostrava, tambm, um total desrespeito s regras estabelecidas entre ambos.
Clay havia desistido do amor, que para ele tinha um nome prprio e um endereo desconhecido na cidade de San Francisco...
Samantha, porm, deixara bem claro, com sua atitude, que no o queria mais.
Entretanto, nem por isso Clay abriria mo do sonho de ter um lar e filhos.
No se podia ter tudo na vida, le se dizia, nas horas em que o desespero tornava-se insuportvel.
Enganara-se redondamente, ao desposar Vicky, que em nada se parecia com Samantha, sobretudo no carter. O erro fora grave.
Clay j pensava em separao quando descobriu, por puro acaso, que a esposa andava sendo vista em companhia de um certo Roy Vought, jovem rico e excntrico, cuja fama de conquistador era notria.
Comprovar tais comentrios fora to fcil quanto conseguir o divrcio.
Afinal, ambos no se amavam, mesmo. E tudo resumira-se numa questo de quantias e datas.
O terreno, pelo qual ele agora estava interessado, fizera parte do acordo. Era bvio que Vicky tentaria tirar o mximo proveito da situao. Por isso ele pretendia agir com o cautela.
Negcios... Estritamente negcios era o que queria com a ex-esposa.
O ombro direito comeava a incomodar, agora que o efeito da massagem comeava a passar.
Clay recordou o pequeno acidente e um calafrio percorreu-lhe a espinha. A ideia de que um fato simples como aquele pudesse pr fim a sua vida, era de um realismo insuportvel.
Clay riu de si mesmo ao lembrar-se de um escritor que dizia que os animais eram imortais... justamente por no terem conscincia de que a morte um dia os surpreenderia.
E ele no deixava de ter razo, Clay pensou, filosoficamente.
A vida era uma ddiva, que podia ser retirada a qualquer momento, bastando para isto que um caibro casse sobre a cabea de um homem empenhado em agradar a mulher amada...
A vida era, afinal, uma matria delicada e sutil. O ideal seria saborear cada dia como nico, j qu podia ser ltimo. Mas como fazer isso, sem a felicidade que transformava todos os momentos em mgica realidade?
A pergunta poderia ser feita de outra maneira: como ser feliz sem Samantha?
Impossvel, ele concluiu, com tristeza. E bem que tentara, casando-se com Vicky, ou mergulhando profundamente no trabalho... Em vo. Sem o amor daquela mulher, sua vida era um vazio assustador.
 No tenho escolha, a no ser continuar tentando  pensou, em voz alta.
Era s isso que tinha a fazer.

CAPITULO V

O dia seguinte amanheceu com nuvens pesadas ' na linha do horizonte. O sol demorou a venc-las, criando uma atmosfera de ricos tons em vermelho, laranja e ocre, um verdadeiro espetculo para os olhos.
Planejada para aproveitar as irregularidades do terreno montanhoso, a casa de Clay oferecia uma vista espetacular do vale de Victorville.
Em p, na sala, ele passou as mos no rosto, sentindo a aspereza da barba por fazer. Mas antes do banho matinal precisava de um caf bem forte.
Estava empenhado em prepar-lo, na cozinha ampla e clara, quando o telefone soou. Caminhando at a extenso, que pendia da parede, Clay atendeu. Era a secretria, Alice, com novidades.
	Desculpe-me por ligar to cedo, mas como voc parecia ter urgncia de entrar em contato com Charles Klain...
	Voc o encontrou?  Clay apartou, ansioso.
	Sim. Ele estar a em dez minutos... Fiz bem de marcar o encontro, ou no precisava ter sido to rpido?
	De fato, no gosto de ser incomodado em casa, principalmente de manh. Mas o caso  urgente, Alice. Voc fez muito bem, sim. E como esto as coisas a no escritrio?
	Tudo bem.
	Nenhum problema?
	Nada que eu no possa cuidar pessoalmente.
	Qualquer novidade, entre em contato.
	Certo, chefe  ela gracejou.  Desligando...
Clay, estava naquele estgio da manh, onde os pensamentos eram lentos e preguiosos. Ainda ligado ao mundo misterioso dos sonhos, sentia-se invadido por uma tentadora languidez, uma vontade entregar-se  contemplao e s sensaes mais puras.
	Samantha...  disse, baixinho.
Assim, deixou que a imagem da mulher amada flutuasse em sua mente... E depois se projetasse no espao, fundindo-se com as nuvens coloridas. Sentia calma e uma saudade intensa do passado, quando tudo era mais simples.
Agora, havia um casamento desfeito, uma ausncia irreparvel, uma criana.
	Jess...  Clay sorriu, ao lembrar-se do menino. Era a criatura mais encantadora que j conhecera, pensou, tomado por uma onda de ternura.
A simpatia entre ambos fora imediata. Era como se j se conhecessem h muito tempo.
Pensar que Jess era fruto da relao de Samantha com um homem de quem ele nem sabia o nome... era triste, muito triste.
A gua comeou a ferver, no fogo. Com gestos automatizados pela longa prtica, Clay preparou o caf e serviu-se de uma xcara. Estava bem forte, com pouco acar, como ele gostava. Naquele momento a campainha soou e Clay, interrompendo o gesto de levar a xcara aos lbios, foi atender a porta.
Era o detetive, Charles Klain, como ele j previa.
	Bom dia, Clay.
	Bom dia, Charles. Entre, por favor. Acabo de fazer caf. Voc aceita uma xcara?
	Claro, obrigado.  O detetive acompanhou-o at a cozinha.  Como tem passado, Clay?
	Bem. E os negcios, como vo?
	No posso me queixar. s vezes aparece um ou outro caso mais difcil... Voc sabe...
	Posso imaginar.
Ambos sentaram-se  mesa, j posta para o desjejum. Sem precisar de convite, Charles serviu-se de biscoitos e gelia, exibindo um simptico sorriso no rosto bem barbeado.
Clay o conhecia h muitos anos. Sempre admirara-lhe a postura calma, que transmitia uma boa dose de segurana s pessoas que o cercavam. Charles Klain era muito competente, mas igualmente modesto.
Tomando seu caf, com gestos lentos e precisos, ele parecia a serenidade em pessoa. Seria difcil imagin-lo em ao. Mas que ningum se enganasse com as aparncias... Pois Charles podia se transformar numa fera, quando necessrio.
	Alice no quis me adiantar nada  ele disse, aps terminar o caf.  Do que se trata?
Em poucas palavras Clay resumiu seu reencontro com Samantha, a negativa dela em coloc-lo em contato com Vicky e a surpresa da existncia de Jess...
	No estou entendendo, amigo  o detetive comentou.  Distribuindo um pouco de dinheiro nas mos certas, voc logo receberia as respostas de que necessita... Por que mandou me chamar?
	Tentei os caminhos normais, sem resultado. E no sou muito bom, fora deles. Entende o que quero dizer?
Charles riu, divertido. Gostava do estilo direto de Clay Ellis.
	E por que a irm de sua ex-esposa no quer ajud-lo?  perguntou.
	No sei. E a comea o problema. Penso que talvez Samantha esteja querendo proteger Vicky de alguma coisa.
	Entendo. Voc acha que sua ex-esposa est metida em alguma complicao...  isso?
	No consigo imaginar outro motivo pelo qual Samantha esteja tentando impedir nosso encontro.
Ambos ficaram em silncio por alguns instantes. Servindo-se de uma segunda xcara de caf, Charles Klain retomou a conversa:
	Pensando bem, existe uma outra possibilidade... bastante vivel, alis  disse, com um sorriso.
	Qual?
	Cime. Talvez Samantha Adamson esteja apaixonada por voc. Por isso, no quer que voc se aproxime da irm.
	Bobagem. Ela me abandonou h anos, mudando-se de cidade, sem deixar endereo. S me casei com Vicky depois disso.
	As pessoas mudam, com o tempo.
	... S que ela escolheu uma forma chocante de demonstrar isso  Clay sentenciou, com amargura.  Teve um filho com algum que no conheo.
	As mulheres tm razes que a prpria razo desconhece  Charles Klain pontificou, parodiando um velho provrbio.
Clay sorriu, tristemente, antes de dizer:
	Quero saber quem  o pai de Jess.
	Eu estava pensando justamente nisso. Parece que temos, aqui, duas investigaes em uma.
	Dois tipos diferentes de investigao, eu diria  Clay o corrigiu.
Charles Klain fitou-o com uma expresso interrogativa. E ele esclareceu:
	Vamos colocar assim: localizar Vicky ser a investigao oficial, encomendada por minha empresa. Descobrir por que motivo Samantha est tentando escond-la de mim, e quem  o pai de Jess...
	J seria uma investigao de carter particular  Charles Klain completou.  Certo?
	Exato.
Charles assentiu com um gesto de cabea, antes de indagar:
	Para quando voc quer o resultado?
	O mais rpido possvel.
	Era o que eu imaginava.  Levantando-se, o detetive estendeu a mo a Clay, em despedida.  Manterei voc informado,
	Faa isso, por favor.  Clay apertou-lhe a mo e conduziu at a porta.
	Faz um belo dia  disse Charles, j na varanda.
	... Gostaria de estar em outro estado de esprito, para poder apreci-lo devidamente. Adeus, amigo.
	At mais ver, Clay.  E o detetive partiu.
Samantha vinha tentando localizar a irm h vrios dias. Sentia-se na obrigao de faz-lo, depois da ltima visita de Clay a sua casa. O modo indignado como ele partira, deixara-a deprimida. Afinal, ela sabia que no estava agindo correta-mente e isso era contrrio a sua natureza franca e direta.
O telefone, to longamente esperado, j tinha sido instalado, facilitando bastante o dia-a-dia.
No fora difcil escolher as pessoas a quem deveria informar seu novo nmero: o editor do jornal, alm de dois ou trs amigos mais ntimos.
Quanto aos outros, poderiam muito bem esperar a publicao de seu nome e nmero na lista telefnica.
Vicky tambm fora informada de seu novo nmero. Ou melhor: ela deixara gravado, na secretria eletrnica de Vicky, quatro mensagens. E at o momento no recebera resposta.
Samantha tinha quase certeza de que a irm se encontrava na cidade. E o motivo dessa certeza devia-se a uma simples deduo: o grupo de rock Sin-Seers estava gravando seu novo CD num estdio situado no centro da cidade. E apresentava-se regularmente no Orange Show Grounds, SL mais famosa casa de rock de San Francisco, que ficava a apenas uma hora de distncia dali. Os jornais e noticirios da tev anunciavam constantemente o fato.
Vicky estava vivendo com Mark McCall, o cantor dos Sin-Seers. A nica maneira de entrar em contato com ela era deixando recados na secretria eletrnica.
Mas havia outra alternativa, Samantha lembrou-se, repentinamente: o Diamond Bar, no centro bomio de San Francisco, ponto de encontro de artistas e intelectuais da cidade.
S que Samantha no tinha a menor-condio de enfrentar uma noitada no Diamond, mesmo que fosse para conseguir a informao de que tanto necessitava. Afinal, tinha Jess para cuidar.
Uma onda de tristeza, mesclada  resignao, a invadiu. Pensar que tinha to pouco contato com Vicky que, afinal, era sua nica irm!
Mas o carter inconsequente de Vicky a exasperava. Isso, sem falar no descaso que ela demonstrava, com relao ao filho... O que Samantha considerava imperdovel.
Nas raras vezes em que fora, com Jess, ao apartamento que Vicky compartilhava com Mark McCall, sentira-se francamente decepcionada. Vicky os recebera apressada, mostrando-se tensa e irritadia. A presena do filho exercia, sobre ela, um efeito negativo.
Samantha lembrava-se claramente da cena na maternidade, quando Vicky entregara-lhe Jess, sem sequer olhar para o rostinho contrado de quem acabara de chegar ao mundo. Fora tudo muito simples, na hora de efetuar o registro da criana: "pai desconhecido e, me, Adamson." S que Samantha Adam-son e no Vicky. Essa pequena manobra evitara os srios riscos e aborrecimentos que certamente viriam, se ela tentasse uma adoo oficial...
No que Samantha no pudesse ter adotado Jess, legalmente. Mas era solteira e isso pesava bastante. A possibilidade, por si s assustadora, de que fosse preterida por um casal, fora suficiente para decidi-la.
Assim, Samantha agira de maneira ilegal, tornando-se me do filho de Clay e Vicky. E no condenava-se por isto.
	Voc est triste, mame?
A voz do menino trouxe-a de volta  realidade.
	No, filho.  s uma dor de cabea.
	O meu joelho est bom. No di mais. Tio Clay me curou.
Ela sorriu, atraindo o menino para si e apertando-o contra o peito. A lembrana de Jess e o pai, juntos na lanchonete, sem saberem dos laos que os uniam, assaltou-a. Samantha sentiu, no mais profundo de seu ser, a dor lancinante do remorso.
Mas o que fazer na atual circunstncia, seno seguir adiante, ela se perguntava, com angstia. Se ao menos pudesse ajudar Clay de outro jeito, encontrando Vicky, por exemplo...
Desvencilhando-se delicadamente do menino, Samantha pegou o telefone e teclou o nmero da irm, que trazia gravado na memria.
	Vicky... sou eu. Ainda se lembra de mim? Esta  a quinta mensagem que lhe deixo e ainda no recebi seu retorno. Trata-se de um assunto de extrema importncia, mana. Entre em contato comigo, por favor.
Desanimada, Samantha desligou o aparelho. Com um profundo suspiro, contemplou Jess, que brincava no tapete.
	Meu Deus... O que vou fazer, agora? murmurou.
Vamos brincar no quintal, mame  o menino respondeu, julgando que a pergunta houvesse sido dirigida a ele.
Samantha deteve o fluxo de pensamentos sombrios, diante da manifestao de vida que pulsava nas palavras simples da criana.
Sim... Jess estava com a razo, ela concluiu, acariciando-lhe os cabelos negros e tomando-o pela mo. No seria justo perder aquela bela manh, atormentando-se por um problema que, no momento, no tinha soluo.
	Voc est certo, querido. Vamos tomar um pouco de sol.
	Posso levar a bola?
	Claro.
Os dois saram para a manh, ainda um tanto fresca, que os raios de sol comeavam a aquecer. O vero era uma bno da natureza, que a terra agradecia num esplendor de cores e perfumes.
	Jogue para mim, Jess  disse Samantha, inclinando-se.
A bola veio rolando em sua direo e ela a devolveu, com certeira pontaria, para as mos ansiosas do menino.
O jogo prosseguiu, com variaes bastante criativas.
O tempo escorregava pelos ponteiros das horas, sem que Samantha ou Jess se dessem conta disso.
A certa altura, Samantha viu a sombra da mureta da varanda sobre o canteiro de margaridas, na parte frontal da propriedade... Sinal evidente de que o sol j havia percorrido uma boa poro de sua rota diria.
	Agora preciso parar, querido  ela afirmou, surpresa por ter se esquecido, do tempo.  Tenho um trabalho a fazer.
O menino protestou levemente, mas tambm estava cansado. Assim, ambos entraram na casa.
Pouco depois, Samantha j estava no escritrio, s voltas com a criao de sua coluna semanal. Sobressaltou-se, quando o telefone soou, no silncio da casa. Bem, ela teria de se acostumar com aquilo, pensou, enquanto atendia:
	Al?
	Oi, Sami. Aqui  Virgnia Prescott. Como vai voc?
	Ol  ela reagiu, surpresa.  Estou muito bem, obrigada. Como conseguiu o nmero de meu telefone? Ele acaba de ser instalado...
	Leio sua coluna toda semana. Foi s ligar para o jornal.
	Oh, claro. E voc, Virgnia, como vai?
	Levando a vida.
	Continua trabalhando como chefe do setor administrativo da maternidade?
	Sim  Virgnia respondeu, sem nenhum entusiasmo.  Voc conhece a expresso enxugar gelo? Pois s vezes sinto que estou fazendo exatamente isso. Nem todo mundo tem a sorte de exercer um trabalho criativo e bem remunerado, como o seu.
	Que se trata de algo criativo, no resta a menor dvida. Toda semana tenho de espremer o crebro ao mximo, para conseguir um assunto que interesse ao pblico e ao editor do jornal, ao mesmo tempo. Isso no  nada fcil, pode apostar. Quanto a ser bem remunerado... fica por conta de sua imaginao frtil.
	Vou fingir que acredito. Vocs, escritores, tm mania de viver se queixando. Faz parte do charme, eu creio.  Virgnia fez uma pausa.  Como vai Jess?
	Crescendo com sade, graas a Deus.
Samantha conhecera Virgnia na maternidade onde Jess nascera. Sem saber a verdade, Virgnia facilitara os trmites burocrticos, na poca.
Uma simpatia imediata e recproca unira ambas, que chegaram a se encontrar algumas vezes, antes que as obrigaes e a correria do dia-a-dia acabassem por afast-las.
	Voc deve estar se perguntando porque resolvi entrar em contato, depois de tanto tempo.
	De fato.
	Bem, no sei se o que tenho a contar  importante para voc...  Virgnia interrompeu-se, como se escolhesse bem as palavras para o que tinha a dizer.  Acontece que apareceu por aqui um tal de Charles Klain, fazendo perguntas sobre o nascimento de Jess. Como vinha recomendado por um dos diretores, tive que dar-lhe acesso s informaes que ele queria.
	Sei...  A voz de Samantha no demonstrava o pnico que a assaltava.
	Voc tem ideia do motivo pelo qual ele veio at aqui?
	No. Em todo caso, quero agradec-la pelo interesse e pela informao.
	Achei que voc deveria saber.
	Fez bem. Obrigada, Virgnia. Precisamos nos encontrar qualquer dia, para colocarmos os assuntos em ordem.
	Quando quiser, ligue. Ser um prazer voltar a v-la.
Ambas se despediram, cordialmente. S ento Samantha deixou vir  tona o medo que a dominava. Com a pulsao acelerada e as mos trmulas, ela levou um longo tempo para se acalmar.
Pouco depois, discava o nmero impresso no carto de visitas, que durante dias ficara no aparador, no hall.
	Ellis, Construo e Arquitetura  atendeu uma voz feminina, solcita e a um s tempo impessoal.
	Gostaria de falar com Clay. Diga que  Samantha Adamson, por favor.
	Aguarde um momento, sim?
Com o corao oprimido pela angstia, ela ouviu a voz de Clay, logo em seguida:
	Sami... Que milagre voc ligar para mim.
	Vamos direto ao assunto, Clay. Que histria  essa de pessoas investigando minha vida, na cidade?  ela o questionou duramente.
	Pessoas... Do que voc est falando?
	No se faa de desentendido.
	Mas realmente estou achando estranho. Contratei um detetive para localizar Vicky, j que voc se recusou a me ajudar. Eu a avisei que faria isto...
	Em primeiro lugar, eu no me recusei. S no pude faz-lo da forma que voc queria.
	Sei.  A voz de Clay soava carregada de ironia.  E em segundo...
	No sei o que o paradeiro de minha irm tem a ver com a maternidade onde Jess nasceu. Pode me explicar isto?
	No. Mas imagino que um bom detetive procure se informar, ao mximo, sobre pessoas envolvidas com a investigao em curso.
	Muito racional, mas no convence. O que voc est querendo, Clay Ellis? Encontrar Vicky, ou bisbilhotar minha vida?
Fez-se silncio do outro lado da linha. Depois, Samantha ouviu um riso abafado e curto. S ento Clay retrucou:
	E voc, Samantha Adamson? O que est tentando esconder de mim?
	Nada  ela respondeu, rpido demais.
	No  o que parece. Suas atitudes demonstram o contrrio.
	Ah, sim? E o que sua exaltada imaginao sugere?  ela o desafiou.
	Coisas simples... Tal como Vicky estar metida numa encrenca grossa. E voc, como sempre, tentando proteg-la.
	Oh, que concluso fantstica  Samantha opinou, com sarcasmo.  Acho que vou convid-lo a participar de minha  coluna semanal. Voc  to criativo!
	Escute, se voc no tem mais nada a dizer,  melhor desligar. Estou muito ocupado, sabe?
	Tenho algo a dizer, sim: deixe- me em paz.
	At a,  muito simples. Temo apenas que no possa ensinar, ao detetive, como realizar seu trabalho. Alis, por que voc no aproveita para pedir-lhe que localize o pai de Jess? Afinal, ele deveria colaborar com a manuteno do menino, j que o fez.
	Agradeo a sugesto, mas no preciso da ajuda de nin gum para criar meu filho.
	Esta  a sua opinio. O que dir Jess, quando crescer e tomar conscincia de que foi privado do pai, por uma vontade alheia a sua?
	Isto no  problema seu.
	 De fato, no. Estou apenas tentando demonstrar o quanto sua atitude  irracional.
Samantha no pde responder. O raciocnio de Clay era correto. Ela estava equilibrada em bases falsas, e tinha que levar adiante seu pobre jogo.
	De alguma maneira, Clay Ellis, voc est certo. Tenho de reconhecer isto.
	Enfim, voc demonstra um pouco de bom senso.
	S que a vida de uma pessoa tem certos meandros que vo alm da mera lgica e da racionalidade. Explicar as aes de um ser humano, por resultados ou fatos,  ignorar suas sutilezas. E por falar em sutileza, voc j ouviu falar do direito de aprender errando? J pensou nisso alguma vez, em sua vida?
	Brilhante argumento, Sami. Mas acontece que as aes impensadas trazem, s vezes, consequncias terrveis. E esse sofrimento poderia ser evitado, se usssemos um pouquinho de bom senso.
	E bom senso seria casar-me, ter um lar e filhos, aceitar as pequenas e grandes traies do dia-a-dia, at que o divrcio chegasse?
	E a alternativa para esse quadro  ter um filho de algum que nem sabe que  pai, viver em completa solido social... Enfim, ser como voc?
	Por que no?  ela o desafiou.  Sua vida  assim to maravilhosa, que deva ser tomada como exemplo?
	Poderia, Sami. Mas infelizmente est fora do meu poder transformar minha vida no que sempre sonhei e quis.
	E a culpa deve ser do destino...  ela retrucou, irnica.
	Talvez. De que outra forma eu poderia explicar o inexplicvel?
	Do que voc est falando, Clay Ellis?
	De amar sem ser amado, Sami. Agora vou desligar. Tenha um bom dia.
	Espere...  ela ainda tentou det-lo.
S o silncio respondeu, do outro lado da linha.
Dois dias depois, Clay dirigia seu BMW pela cidade, quando resolveu parar num supermercado. Pretendia demorar apenas alguns minutos, o suficiente para comprar caf, po integral e dois ou trs tipos de queijo.
Estava justamente concentrado no rtulo de um desses produtos, quando a risada cristalina de um menino chegou-lhe aos ouvidos.
O som era familiar, mas Clay levou ainda algum tempo para identificar...
	Jess!  exclamou, feliz. Aquele riso era inconfundvel.
O certamente menino estava do outro lado do corredor.
	Deixe isto a.  A voz de Samantha soou clara e forte.  Voc sabe que no usamos enlatados.
	Ah, mame, mas esta latinha  to bonita!  o menino protestava.
Colocando na cesta de compras o queijo tipo catupiry, cujo rtulo havia examinado, Clay caminhou pelo corredor e dobrou  direita.
Logo avistou Samantha que, ignorando que estava sendo observada, empurrava um carrinho lentamente, enquanto observava os produtos ali expostos, conferindo preos e validade.
Clay sentiu uma profunda emoo ao v-la to concentrada naquela tarefa. Com uma das mos, ela tentava controlar Jess que, dentro do carrinho, tentava alcanar os produtos expostos.
A beleza daquela mulher sempre fora indiscutvel. Mas, no momento, ela parecia ainda mais bonita, integrada perfeitamente ao papel de me e dona de casa.
Estranhamente, ele sempre imaginara v-la daquele jeito, um dia... Sonhara, tambm, em acompanhar a gravidez do primeiro filho, fazendo planos para o futuro como um romntico incurvel.
Mas a realidade estava ali, diante de seus olhos, como se quisesse mostrar-lhe a fora de sua crueldade: Samantha estava mais linda do que nunca, mas no lhe pertencia. A criana existia, era bela e encantadora. S que no era seu filho...
Clay sorriu, com amargura, engolindo a dura verdade que se apresentava diante de seus olhos.
Como se atrado pelo olhar ardente que incidia sobre si, Jess voltou-se dentro do carrinho e seus olhos negros, de longas pestanas, fixaram-se nos de Clay.
Houve aquele segundo de reconhecimento e depois um lindo sorriso abriu-se no rosto da criana, que gritou:
	 o tio Clay, mame!  o tio Clay!
Estremecendo da cabea aos ps, Samantha fez girar o carrinho, tentando conter a emoo que ameaava sufoc-la. E l estava o homem que povoava suas longas noites insones, com imagens fortes e sensuais. O homem, que era ao mesmo tempo sonho e pesadelo, aproximava-se com um sorriso ambguo.
A beleza mscula de Clay Ellis tambm amadurecera, ela constatou, com encanto. No havia mais em seu corpo aquela magra angulosidade da adolescncia. E seus olhos brilhavam de modo diferente, irradiando uma beleza que vinha de dentro, de seu generoso corao, de sua bondade nata.
	Ol, Sami... Ol, Jess...  ele cumprimentou ambos.  Que bela surpresa encontr-los aqui.
	Oi, Tio Clay  disse o menino.  Voc quer me empurrar um pouquinho?
	Posso fazer isso. Mas j vou avisando que sou piloto de provas em carrinhos de supermercado.
	Eu sou corajoso. Voc mesmo disse.
	Ento, est certo. Tudo bem, Sami?  ele a consultou, com um sorriso.
	Veja l o que vai fazer...  ela o advertiu.
Mas Clay, depois de colocar sua cesta de compras dentro do carrinho, j comeava a impulsion-lo, fazendo curvas sinuosas e ganhando velocidade.
As rodas de borracha deslizavam pelo cho. Os gritos de alegria de Jess eram como msica para os ouvidos. Entregue quele jogo divertido, Clay sorria, no apenas com os lbios, mas tambm com os olhos e o corao.
	Mais...  o menino pedia, fechando os olhos.
	Tem certeza?
	Tenho.
	Ento me guie.
 Como?
	Diga para onde devo virar.
	Como  que eu vou saber?  Jess perguntou, assustado.
	Olhe rpido para os corredores e veja os que esto desocupados, sem gente.
	No d tempo.
	D, sim.  uma questo de ateno e prtica. Vamos l  Clay o encorajou.
	E...
	O qu?
	Para c.
	Fale direita ou esquerda. A direita  a mo que voc pega o garfo. A esquerda  a outra.
	Eu pego o garfo com as duas.
	Que menino complicado  Clay comentou, divertido, parando o carrinho. De sbito, teve uma ideia. Retirando o rtulo adesivo do queijo tipo catupiry, mostrou-o ao garotinho.  Olhe, vou colar isto na sua mo direita. Quando o caminho estiver livre deste lado voc grita: "direital" E eu obedeo.
	E do outro?
	Esquerda. Entendeu?
O menino assentiu, muito srio, mas pediu:
	D para voc ir devagar, no comeo?
	Claro. Mas s um pouco, at voc se acostumar. Depois, irei mais rpido, certo?
Jess concordou com um gesto de cabea, antes de repetir:
	Certo.
	Ento, vamos l.
Clay empurrou o carrinho, lentamente, pelo corredor. Logo chegou ao primeiro cruzamento.
	Queijo!  gritou o menino.
	Est bem  Clay obedeceu, rindo.
Samantha observava,  distncia, aquele quadro comovente: pai e filho divertindo-se, juntos. Naquele momento, entendeu que no podia priv-los da companhia um do outro.
Difcil seria propiciar a convivncia, to necessria, sem revelar a verdade, que ambos deviam continuar ignorando.
Pouco depois, Samantha ainda pensava no assunto, sentada numa confortvel cadeira, na lanchonete do supermercado. A sua frente, Clay e Jess devoravam uma pilha de pes de queijo e tomavam suco de laranja.
A certa altura, Jess comeou a brincar com outro garotinho, que estava na mesa vizinha, com os pais.
Samantha, apesar dos velhos receios, deliciou-se com a possibilidade de conversar um pouco a ss, com Clay. E ficou surpresa quando ele lhe contou que estava sendo difcil localizar Vicky, na cidade.
Segundo o detetive, s havia duas hipteses viveis: ou ela estava usando um nome falso, ou tinha viajado.
Samantha no queria se comprometer, mas estava se sentindo bem, naquela tarde. E talvez por isso tenha relaxado as defesas:
	No sei se voc se lembra, mas ofereci meus prstimos para entregar, a Vicky, os documentos referentes quele terreno de que voc falou.
	Eu sei  Clay assentiu, com um suspiro.  E parece que banquei o idiota, recusando.
	Voc no poderia imaginar que seria to difcil  ela argumentou, conciliadora.
	De fato. Mas fui prepotente, esta  a verdade. Voc me daria outra chance?
	Est bem  Samantha concordou, depois de refletir por alguns instantes.
	Otimo.  Ele sorriu, satisfeito.  E quando posso dar-lhe os documentos?
	Amanh  noite  ela respondeu, com um suspiro, perguntando-se se no teria sido exageradamente solcita. Mas j era tarde para retroceder.  Leve os papis e verei o que posso fazer.

CAPITULO VI

Samantha olhava para o livro de receitas, incapaz de chegar a uma deciso. Queria preparar um jantar que fosse ao mesmo tempo simples e original. Mas no sabia o que escolher, entre tantas sugestes que o livro oferecia.
Era vero, mas a noite estava fresca, exigindo um agasalho leve.
Talvez por isso, Samantha decidiu-se por um prato mexicano, uma espcie de guaca mole, adaptado ao gosto americano: abacate na casca, recheado com picadinho de vitela ao molho de manjerico.
Satisfeita com a escolha, ela escolheu os abacates mais bonitos que tinha na fruteira e abriu-os ao meio. Retirou os grandes caroos e em seu lugar espremeu suco de limes verdes. Com um palito, fez diversos furos para que o lquido cido penetrasse a polpa generosa do fruto.
Agora, faltava trabalhar o recheio, o que a manteve ocupada por um bom tempo.
Estava lavando algumas folhas de agrio para a salada, quando a campainha soou: era a sra. MacAde, a vizinha, que vinha apenas para dar-lhe um pouco de sorvete caseiro e bater um papo.
Foi agradvel, para Samantha, receb-la na cozinha, enquanto preparava o jantar. A velha senhora tinha certa presena de esprito e um senso de humor interessante. Tanto que, em certos momentos, Samantha flagrou-se rindo de alguns comentrios engraados, coisa rara de acontecer em seu dia-a-dia.
Bem, a sra. MacAde era uma boa pessoa, alm de inteligente.
Mas seu nvel de curiosidade no diferia muito do das outras mulheres. Assim, ao ver Samantha preparando um jantar com tanto afinco, no se conteve e perguntou:
	Est fazendo comida mexicana... para voc e Jess?
	Vou receber algum para jantar  Samantha explicou, num tom casual.
	Trata-se daquele belo homem do BMW prateado, no  mesmo?
	Sim. Como soube, sra. MacAde?
	Ora, Sami... No so muitas as pessoas que vm a esta casa. Afinal, voc  excessivamente reservada.
	A senhora acha?
	Sim. E, se me permite uma opinio, creio que uma mulher to bela e jovem deveria ter mais amigos.
Samantha assumiu uma expresso de dvida e a sra. MacAde ousou perguntar:
	Qual  o problema, Sami?
	No creio que seja uma questo de problemas, mas de opo. Esta palavra  mais exata, para o caso.
A mulher sorriu, antes de sentenciar: 
	Solido, na sua idade,  uma tolice. O tempo passa, querida. E, depois, tudo se torna mais difcil.
	Tenho Jess e minha profisso  Samantha argumentou, com gravidade.  Para mim, j  o bastante.
	Por enquanto.
	Como assim?
	O tempo corre numa velocidade incrvel. Daqui a pouco, Jess estar frequentando o colgio, ter namoradas, acabar se casando e tendo sua prpria vida.
Samantha riu, divertida, ao imaginar o menino j adulto, chegando em casa tarde da noite...
	A senhora no acha que est precipitando as coisas?  perguntou.
Com um grande suspiro, a vizinha sentou-se  cabeceira da mesa, olhando Samantha com ternura.
	Eu pensava como voc, quando tinha a sua idade.
	Arrepende-se do que fez?
A sra. MacAde demorou alguns instantes para responder:
	No. Como poderia, tendo um marido e filhos maravilhosos? No se trata disso, querida.
	Do qu, ento?
	De certos bailes que perdi... Noites que passei em claro, cartas que no mandei, amores que no vivi... Voc compreende?
	Creio que sim  Samantha assentiu, comovida.
	Pois  disso que estou falando.
	De qualquer forma, sra. MacAde, tenho ainda algum tem po para pensar sobre o assunto.
	E claro, meu bem. Mas no jogue fora as chances que a vida lhe der.  A sra. MacAde sorriu, significativamente.
	Como o jantar de hoje, por exemplo?  Samantha indagou, retribuindo o sorriso.
	Foi voc quem disse, meu bem...
Ambas riram, fitando-se no fundo dos olhos, irmanadas pela profundidade do momento.
	Agora preciso ir, querida. Tenho de servir o jantar daqui a pouco e ainda nem comecei a faz-lo.
Samantha acompanhou-a at a porta e subiu as escadas para ver Jess, que brincava com lpis e aquarelas no cho do quarto.
	Hora do banho, rapazinho.
	Daqui a pouco, mame. Estou terminando um desenho para o tio Clay.
	Deixe-me ver.  Ela debruou-se sobre o menino.
O fundo era azul-escuro. Um carro esporte, branco, destacava-se no centro da folha. Havia um homem, que s podia ser Clay, encostado no veculo. Era enorme, forte e trazia um grande sorriso no rosto. Assim o menino o via, Samantha constatou, comovida.
Mas o detalhe que mais chamou-lhe a ateno foi uma mulher, desenhada ao lado do homem. Evidentemente, os dois eram mais de que amigos, pois estavam abraados.
	Quem so as pessoas no desenho, querido?  ela perguntou.
	Esta  voc e, este, o tio Clay... No est vendo?
	Oh... sim, agora estou percebendo  Samantha respondeu, no tom mais natural que conseguiu.  Mas por que estamos abraados, se somos apenas amigos?
	No sei.  Jess parecia embaraado.  Eu vejo assim.
		E voc gostaria que fosse assim?
Ele balanou a cabea afirmativamente e sorriu.
	Voc sente a falta de um pai no  mesmo, meu querido?
Ele assentiu novamente, antes de responder:
	Mas no gostaria de ter um pai como o sr. MacAde.
	Por qu?  Samantha indagou, surpresa.
	Ele no sabe brincar como o tio Clay.
Ela riu, com ternura, compreendendo mais do que as palavras podiam dizer, naquele momento.
	Est certo, querido. Mas agora voc precisa tomar banho e trocar de roupa. No quer que Clay o encontre assim, no  mesmo?
O menino sorriu, em concordncia. Depois de retocar alguns pontos do desenho, levantou-se e caminhou para o banheiro. Samantha ficou ainda um tempo contemplando o desenho, enquanto seus pensamentos recusavam-se a fluir com clareza. Estava sofrendo e tinha plena conscincia disso. Apenas, no sabia como mudar a situao.
Com um suspiro resignado, ela retornou  cozinha. Faltavam ainda uns toques delicados, para completar seu trabalho culinrio: ralar noz-moscada sobre os abacates, antes de lev-los ao forno; tirar as folhas de agrio da gua avi-nagrada e arrum-las na travessa... Enfim, uma srie de detalhes importantes, que Samantha sabia ser o segredo de toda boa cozinheira.
As horas passavam rapidamente. Ela precisava tomar banho e se vestir, para receber Clay.
Assim, depois de regular o timer do forno para gratinar o queijo ralado sobre o abacate, sem tost-lo, Samantha foi se aprontar.
A campainha da porta soou duas vezes e Jess correu para atender.
	Oi, Tio Clay!
	Ol, garoto. Olha o que eu trouxe para voc.
O menino arregalou os olhos, diante do grande embrulho multicolorido, e estendeu as mozinhas para receb-lo.
	O que ?
	Abra e ver.
Fechando a porta, Clay o seguiu at a sala. Samantha no estava ali.
	Um caminho de bombeiros!  Jess exclamou, maravilhado, ao abrir o presente.  Nossa, como ... como ...  ele procurava as palavras, sem encontr-las.
	Bonito?  Clay sugeriu, deliciado com a reao do menino.
	Enorme  Jess conseguiu dizer, por fim.
Sentado no tapete, contemplava o brinquedo com intenso entusiasmo. Clay abaixou-se a seu lado.
	Veja... A escada se posiciona assim...  s puxar por aqui, que ela aumenta de tamanho.
	Para chegar at o alto dos prdios  Jess reconheceu, muito srio.
	Isso mesmo.  O som dos passos de Samantha, descendo a escada, o fizeram voltar-se. Erguendo o rosto, ainda sorrindo, Clay estremeceu pelo impacto da viso que se descortinava diante de seus olhos.
Como no mais dourado de seus sonhos, Samantha parecia flutuar dentro de um vestido leve, de cor salmo, que valorizava-lhe cada curva do corpo perfeito.
Era impossvel ignorar tanta sensualidade mansa, tanta beleza inequvoca.
	Nossa, Sami... Como voc est linda.
Ela sentiu-se corar, como uma adolescente, mas sabia que no era de vergonha e sim de prazer. H muito tempo no ouvia palavras to doces como aquelas. E, o que era melhor: aquelas palavras vinham de Clay Ellis, o nico homem do mundo que podia faz-la sentir-se daquela maneira... Plena, serena e feliz.
	Voc tambm no est nada mal  ela disse, com receio de denunciar, no timbre de voz, toda a emoo que a inundava.
E foi com intensa surpresa que ouviu a prpria voz soando firme e segura.
Olhando para si, constatou, mais uma vez, que estava realmente bela. Mas no havia tido a inteno de provocar aquela reao em Clay Ellis. Na verdade, tratava-se de um desejo natural de sentir-se bonita... E tambm de usar, finalmente, o vestido que comprara h muito tempo, num momento difcil de sua vida. 
Descendo os ltimos degraus, Samantha recordou-se da tarde em que o adquirira...
Estava com Vicky, passeando pelo centro da cidade. Olhava as vitrines, sem prestar ateno em nada, preocupada apenas com a gravidez da irm e as bvias consequncias, que no tardariam a vir.
	Olhe para aquilo, Sami  dissera Vicky.
	O qu? Ah, sim...  um belo vestido.
	Belo?  um verdadeiro sonho, garota!
	Se gostou tanto, por que no o compra?
	No  para mim, "sua" boba. Com este barrigo, como eu poderia...
	Quer dizer que voc acha que ele serve... para mim?
	Lgico. No concorda?
	Sei l, Vicky. O modelo no faz muito o meu gnero.
	E qual  o seu gnero, afinal... Estas roupas de executiva, qe a fazem parecer uma aeromoa da American Airlines em frias?
Samantha havia rido da piada, mas continuara firme em seu ponto de vista.
	Esquea, Vicky. No estou num bom dia para fazer compras. Alm do mais, tenho roupas suficientes para todas as estaes.
	Santa Ignorncia!  Vicky exclamara, num tom exageradamente dramtico.  Quem est falando em estaes, maninha?
	Do que estamos falando, ento?  Samantha retrucara, j irritada.
	De climas. E no estou me referindo a meteorologia, se  que voc me entende.
	Climas  Samantha repetiu, meneando a cabea.  Tolices, Vicky...
	Voc vai sair com algum que lhe interessa e de repente abre o guarda- roupas... O que v? Um monte de uniformes de trabalho, que esfriariam o entusiasmo at mesmo do grande Casanova.
Vicky fizera uma pausa, arregalando os olhos numa expresso cmica, antes de continuar:
	Mas no... L est aquele belo vestido salmo, que sua querida irmzinha fez voc comprar, a contragosto, numa bela tarde em que passeavam pela cidade. Voc provavelmente vai se ajoelhar no carpete e me agradecer t-la convencido a lev-lo para casa.
	Muito interessante  Samantha aquiescera, irnica.  E se isto no acontecer, o que  muito mais provvel, toda vez que eu abrir o guarda-roupa acabarei me sentindo a mais perfeita idiota... por ter comprado um vestido salmo de cento e oitenta dlares, apenas porque a idiota de minha irm teve alucinaes numa tarde, durante um passeio pela cidade.
	Nossa, como voc  ranzinza!
	Ranzinza... eu?  Samantha reagira, espantada.
	Exato. E po-dura, tambm.
	Agora voc est me aborrecendo.
	Vamos fazer o seguinte: voc compra o vestido e o guarda.
Se no usar, ficarei com ele, isto , quando estiver em condies...  E contemplou o prprio ventre, com desgosto.
Cansada daquela discusso infantil e conhecendo a irm o suficiente para saber que ela no desistiria do assunto, Samantha acabara cedendo. Agora, aps tantos anos, enfim usava o tal vestido.
	Veja o que tio Clay trouxe para mim, mame.  Orgulhoso, Jess exibia o caminho de bombeiros.  Tem escada e pneus de verdade.
	Ainda falta voc ver isto.
Com um toque preciso, Clay acionou um boto, fazendo acender as luzes giratrias do caminhozinho e disparando a sirene.
Jess riu e bateu palmas, deliciado. Samantha contemplou a cena, presa de uma intensa emoo. Por fim, Clay desligou o brinquedo, depois de ensinar a Jess como coloc-lo em funcionamento.
	Voc gostaria de um drinque, antes de jantar?  Samantha ofereceu, num tom gentil.
	Eu no sabia que seria convidado...
	Ora, eu lhe disse que viesse hoje  noite.
	Mas no falou nada a respeito de jantarmos todos juntos  Clay retrucou, olhando dela para Jess, com infinita ternura.
Samantha sorriu, recusando-se a deixar que as tristes recordaes do passado a invadissem... No naquela noite. No naquele momento. J sofrera demais. Por ora, queria desfrutar aquelas horas agradveis, ao lado de Clay e Jess.
	Quanto ao drinque...  Ele interrompeu-lhe os pensamentos.
	Sim?
	S se voc me acompanhar.
	Eu no costumo beber, voc sabe...
	Mas trata-se de uma ocasio especial  Clay insistiu.
	Acho que voc tem razo. Bem, o que vai ser?
	Estou aceitando sugestes.
	Bem, para combinar com o prato que preparei, proponho algo como... tequila.
Clay sorriu, surpreso e radiante:
	Quer dizer que voc fez um prato mexicano?
	Isso mesmo. Espero que goste.
	Eu adoro literalmente todas as especialidades da cozinha mexicana, Sami. E, modstia  parte, sei preparar um drinque  base de tequila que...
	No  ela o interrompeu, erguendo a mo, num gesto gracioso.  Hoje voc  o convidado. Continue brincando com Jess. Eu mesma cuidarei da bebida.
Ele continuava a sorrir, agora com ar divertido.
	Certo. No est mais aqui quem falou. Em outra ocasio, demonstrarei meus talentos de barman.
Samantha foi para a cozinha, deixando aberta a porta de comunicao com a sala. Enquanto escolhia algumas limas verdes na cesta de frutas, podia ouvir a conversa de Clay e Jess, na sala. Os dois continuavam se divertindo a valer. Os laos que os uniam eram muito fortes. Como seriam as coisas, no futuro, Samantha perguntou-se, enquanto extraa o suco das limas com cuidado, para depois despej-lo no fundo de dois copos altos.
Prosseguindo em sua alquimia domstica, Samantha ia se deixando invadir por uma agradvel sensao de bem-estar.
A voz grave e pausada de Clay, em contraponto com o timbre agudo de Jess, era como msica para seus ouvidos sensveis.
Pela primeira vez, em muitos anos, Samantha experimentava o conforto de uma presena masculina em casa, na hora em que todas as famlias se reuniam, em torno de uma mesa de jantar, para comentar os acontecimentos do dia.
Mas aquela sensao era to deliciosa quanto irreal.
Afinal, Clay no estava ali como uma presena constante. Era apenas uma visita... Um convidado, nada alm disso. Samantha sabia que no podia esquecer-se desse fato. Caso contrrio, no resistiria  doce tentao de se deixar levar apenas pelos sentimentos... E a estava o perigo.
Afastando aquele pensamento incmodo, ela continuou a preparar o drinque. Colocou uma generosa poro de gelo picado nos copos, j com a dose necessria de suco de lima. Depois, colocou um pequenino pedao de abacaxi, que daria um perfume especial ao drinque. Agora, era s dosar a tequila. Para ela, uma dose pequena. Para Clay, mais generosa.
	Aqui esto os drinques  anunciou, entrando na sala.  Espero que voc goste.
Os copos tilintaram. E ambos sentaram-se no sof, enquanto Jess continuava no tapete, brincando com o caminhozinho de bombeiro.
	Est uma delcia  Clay opinou, depois de provar a bebida.
	Pensei que voc acharia fraco demais para o seu gosto.
	No, Sami. Est perfeito.
O silncio caiu entre ambos, enquanto saboreavam a bebida, em pequenos goles. Um sentimento de paz os envolvia, causando-lhe um intenso bem-estar.
	Voc trouxe os papis que devo entregar a Vicky?
As palavras de Samantha vibraram no ar, causando uma inesperada tenso. Naturalmente, a questo era mais do que cabvel. Alis, fora justamente o motivo daquele jantar. Mas, naquele momento sublime... tinha soado mal. E Samantha chegou a perguntar-se porque a fizera.
	Esto em minha pasta, no carro  Clay respondeu, traindo uma ponta de decepo.  Pensei em conversar sobre isso depois do jantar.  E olhou significativamente para Jess.
	Compreendo. Bem, que tal se jantssemos agora?
	Seria timo  Clay mentiu. Na verdade, teria preferido continuar ali, desfrutando aquela agradvel intimidade, como se ele, Samantha e o menino formassem uma verdadeira famlia.
	Vamos comer, Jess?  ela sugeriu ao filho.
	Est bem, mame  ele concordou, relutando em abandonar o brinquedo.
A mesa de jantar estava linda, coberta com uma fina toalha de linho antiga. Pratos azuis, de porcelana, copos delicados cintilando  luz do teto, talheres com cabos de madeira polida e guardanapos do mesmo tecido que a toalha... Tudo ali denotava um extremo bom gosto.
	Que beleza  Clay comentou, maravilhado.
	Voc se refere  toalha de linho?  A tudo. Pratos, copos, talheres...  Em vez de concluir a frase, ele apenas sorriu.
	Tambm gosto. Mas raramente tenho a oportunidade de us-los.
	Voc sempre foi muito seletiva e reservada. J cheguei a admirar esse aspecto de seu carter. Mas confesso que, s vezes, acho que voc exagera um pouco. Afinal, vive to isolada...
	No tenho tempo para pensar nisso  Samantha defendeu-se.  Minha vida  bastante atribulada, com Jess e o trabalho para o jornal.
Com um gesto, Samantha indicou o lugar que ele devia ocupar  mesa, bem em frente ao dela. Acomodando Jess na cadeira ao lado da que ela ocuparia, continuou:
	s vezes sinto falta de passeios .pelo campo, ou de assistir a uma boa pea de teatro. Mas s de pensar nas providncias necessrias, tais como contratar uma bab...
	Sei do que voc est falando. Vivemos numa correria to grande, que acabamos reduzindo nossas necessidades ao mnimo. Tudo por que receamos complicaes e mudanas em nosso estilo de vida.
	Voc acha que isso  um erro?
No havia desafio naquelas palavras e sim um interesse legtimo, Clay concluiu, satisfeito, enquanto se acomodava na cadeira. S ento respondeu:
	No posso julgar o seu estilo de vida, ou o de qualquer outra pessoa. Quanto ao meu estilo... Bem, continuo gostando muito de msica clssica e adoro ficar em casa, depois de um dia de trabalho, lendo um bom livro e ouvindo uma boa pea.
	O que voc ouve, agora?  Samantha perguntou, movimentando-se pela cozinha, dando os ltimos retoques na refeio prestes a ser servida.
	O que ouo?  Clay sorriu.  Basicamente, o mesmo que no nosso tempo.
	Bach, Handell, Vivaldi...
	E outros que vim a conhecer depois, como um compositor brasileiro chamado Villa-Lobos, e um argentino chamado Ginastera...
	E mesmo?
E a conversa flua naturalmente entre ambos, enquanto Samantha colocava, no centro da mesa, os pratos que comporiam o jantar.
	Podemos nos servir  ela anunciou, por fim.
Cerca de meia hora depois, Clay sentenciou, com um largo sorriso:
	Foi o melhor jantar que j saboreei, nos ltimos tempos. Voc sempre cozinhou bem, Sami, mas hoje, sinceramente... estava demais.
Samantha sorriu, lisonjeada.
	Gosto do que fao  disse, num tom tmido.  Talvez seja este o segredo.
	 um pouco mais do que isto e voc sabe. Talento, imaginao, sensibilidade...
	Pare com isso  ela protestou.  Estou ficando sem graa.
	Impossvel  Clay discordou, com ar maroto.  A graa faz parte de certas pessoas, como a cor dos olhos ou dos cabelos.
Samantha enrubesceu violentamente e detestou-se por isso. Sentia-se como uma colegial, tmida e atrapalhada diante do primeiro namorado.
	Est gostoso mesmo, mame  Jess afirmou, terminando seu ltimo bocado.  Agora, quero sorvete de chocolate.
Samantha serviu-o e em seguida voltou-se para Clay:
	Gostaria de um caf?  Sua voz ainda soava carregada de emoo.
	Sim. Mas eu mesmo vou faz-lo. Voc j teve trabalho suficiente, por hoje.
	Fique  vontade, Clay.
	Fique  vontade  Jess repetiu, imitando-a. Em poucos minutos, devorou seu sorvete e, depois, bocejou longamente.
	Est na hora de se preparar para dormir, querido  disse Samantha, num tom terno.
	Ali, mame...  ele protestou, j se levantando da mesa 	Eu ainda nem dei o presente que fiz para o tio Clay.
	Ento, v buscar.
O menino saiu correndo e voltou logo depois, com o desenho multicolorido nas mos.
	Olha...  E estendeu-o a Clay.  Eu que fiz.
Emocionado, Clay ajoelhou-se ao lado do menino, enquanto observava atentamente o trabalho, em seus mnimos detalhes.
	Este sou eu?  perguntou.
	, sim.
	E a mulher?
	 a mame, no est vendo?
	Sim. Agora que voc disse, me parece bem claro. Est muito bonito, Jess. Obrigado.  E abraou o menino, que ainda segurava o desenho. Em seguida levantou-o do cho, dizendo:
	Acho que o caf vai ter que esperar. Hoje, quem vai pr voc para dormir sou eu.
	Oba!  o menino sorriu, radiante.  E vai ler uma histria bem comprida?
	Com toda a certeza.  Clay consultou Samantha com os olhos.
Ela apenas sorriu, em concordncia, antes de recomendar ao filho:
	No esquea suas oraes, querido.
	Est bem, mame.
Quando ambos saram da cozinha, conversando alegremente, Samantha deixou-se ficar ali, parada, os olhos perdidos no vazio, enquanto uma forte onda de emoo a invadia.
Quando Clay retornou ao andar trreo da casa, Samantha j se encontrava na sala h algum tempo, ouvindo msica.
	Ele custou a dormir  Clay anunciou.  Acho que foi a excitao da noite.
	Certamente que sim.
	Jess  um lindo menino, Sami..
	Eu sei.  Mudando de assunto, ela anunciou:  O caf est na garrafa trmica. Quer tom-lo agora?
	Com um pouco de conhaque, se no se importa.
	Sim.
Samantha ergueu-se do sof e foi providenciar a bebida.
Quando voltou, encontrou Clay  vontade, com a gravata frouxa, os primeiros botes da camisa entreabertos, a cabea apoiada no encosto do sof e os olhos fechados, numa atitude de total relaxamento.
	Aqui est seu caf...
	Obrigado.  Ele abriu os olhos e recebeu a xcara com a bebida fumegante.  Sente-se aqui, ao meu lado. Vamos ouvir esta msica juntos.
Samantha obedeceu, um tanto tensa. Mas logo os acordes de Blue-Moon vibraram no espao, fazendo-a sentir-se leve, receptiva...
Num gesto antigo, que tantas vezes repetira no passado, Clay atraiu-a para perto de si, fazendo com que ela apoiasse a cabea em seu ombro.
Um princpio de resistncia, esboado por Samantha, logo se desfez. E ela entregou-se quele contato, enquanto deixava-se embalar pela magia da msica.
Clay acariciou-lhe os cabelos, enquanto com os lbios buscava-lhe os olhos, a ponta do nariz... a boca.
Samantha suspirou. Nada no mundo poderia ser mais intenso do que a emoo que ela experimentava, reconhecendo em si o fogo que s aquele homem tinha o poder de acender em suas entranhas.
O beijo tornou-se mais ousado e agora as lnguas se encontravam, falando de sensaes que as palavras no tinham poder de expressar.
As mos comearam a se mover, buscando um contato mais ntimo. Os corpos se incendiavam de desejo.
Solta, dentro daquele oceano de mel e fogo, Samantha no resistiu quando Clay a deitou no sof, enquanto murmurava-lhe palavras doces ao ouvido.
Os corpos agora se tocavam de frente, os seios trgidos de Samantha pressionavam o trax forte e musculoso de Clay, cujas mos trabalhavam, vidas, no tecido fino do vestido, que teimava impedir um contato mais ntimo...
A respirao acelerava-se ao ritmo dos coraes desenfreados. E o sangue corria como fogo pelas veias, num galope frentico e selvagem.
	No...  Samantha conseguiu balbuciar, num momento de fugidia lucidez.
	Por que no, Sami  Clay indagou, sfrego.  Deixe-me am-la, como quer o seu corpo.
	Voc est louco, Clay  ela murmurou.  Ambos estamos.
	Loucura  no ouvir a voz do corao, que anseia por essa felicidade.
Samantha bem que gostaria de seguir aquela voz... Mas no podia.
	Pare, Clay.  Ela o empurrou, com firmeza.
	Eu no acredito que voc vai fazer isto conosco. Por favor, Sami...
Mas j era tarde. Empreendendo um intenso esforo, ela j havia readquirido parte do controle sobre si mesma. Erguendo-se, ofegante, sentenciou:
	Voc veio aqui para me entregar papis importantes, que prometi levar a Vicky. V busc-los, antes que eu me arrependa e volte atrs em minha deciso de ajud-lo.
	E como vai explicar a si mesma o que aconteceu aqui, entre ns dois, quando estiver a ss?  ele questionou-a, com amargura.
	Creio que ambos estvamos carentes, saudosos do passado... Afinal, o que importa?  A voz de Samantha agora soava rspida.
	Engane-se o quanto quiser. Eu sei o que  paixo, pois nunca deixei de senti-la por voc. S que meu problema  menor que o seu, pois ao menos tenho a coragem de confess-lo.
	O que voc pensa, ou deixa de pensar, no mudar nada entre ns. Agora, decida-se: traga os papis, ou v embora.
	Est bem. Que seja como voc quiser.  Clay saiu da casa a passos largos, deixando a porta aberta.
Ainda trmula, Samantha respirou fundo vrias vezes, buscando uma calma que estava longe de possuir, no momento. Tinha plena conscincia de que quase cedera ao apelo sensual daquele homem, que ameaava transformar seu mundo organizado e lgico num caos de sofrimentos indizveis.
 Tenho de manter-me em guarda  ela decidiu, num sussurro.
Clay Ellis significava um grande perigo.

CAPITULO VII

	Aqui esto os papis  disse Clay Ellis, um pouco mais calmo.
Agora que o assunto versava estritamente sobre negcios, era mais fcil manter uma posio neutra. Mas Clay ainda sentia os nervos tensos. Sua voz continha um acento spero, embora ele procurasse disfar-lo.
Samantha estava triste. O jantar, que preparara com tanto esmero, havia terminado num completo desastre. Ela havia sido imprudente, disse a si mesma, com desgosto. O vestido de cor salmo, a permissividade ao sentar-se com Clay no sof, para ouvir msica... Como fora tola!
Mas agora era tarde para arrepender-se. O clima tenso dominava a situao.
	Deixe-me ver  pediu, pegando a pasta que Clay lhe oferecia. Com ateno, comeou a folhear os papis ali guardados. Mas logo compreendeu que, sem ajuda, no conseguiria entender o estava registrado, ali. Havia colunas enormes, de estatstica, grficos comparativos, desenhos tcnicos complicados. Por fim, ela confessou:
	 demais para mim. E se no consigo entender, imagine Vicky, do que jeito que  impaciente...
Clay no sorriu. Apenas disse:
	H um resumo, no final do projeto. So trs folhas coloridas, presas por um clip.
Samantha logo encontrou-as. Com alvio, constatou que agora, sim, estava entendendo o teor dos documentos e o significado dos desenhos.
	 magnfico  opinou, com os olhos fixos na arte final do projeto, impressa a cores em papel brilhante.
	Obrigado. Reconheo que fui feliz, nessa tentativa. Mas a verdade  que sempre sonhei em construir algo assim, nesse terreno.
	Ento, porque doou metade a Vicky?
A pergunta fazia sentido e Clay esclareceu:
	Voc conhece sua irm melhor do que ningum, j que praticamente a criou. E sabe o quanto ela sabe pressionar as pessoas, quando quer alguma coisa. 
Clay comeou a caminhar pela sala de um lado a outro, como se mergulhado em profundos pensamentos. Por fim, continuou:
	Sabendo do meu interesse pelo terreno, Vicky fez questo de ficar com a metade.
	Mas voc poderia ter oferecido outra coisa a ela. Um belo carro, por exemplo. Ou algum outro bem que...
	Tem razo  Clay a interrompeu.  Mas, na poca, eu estava quebrado. Tinha investido todo o meu dinheiro na empresa. No me restava outra alternativa.
	E o que o faz acreditar que agora ela queira vender a parte que lhe cabe?
	A prpria Vicky e seu modo de ser. Ela sempre foi do tipo que despreza o que tem. Some-se a isto o fato de que agora posso dispor de uma quantia mais do que razovel.
Samantha sabia que ele tinha a razo... Mais at do que pensava. Pois, apesar de viver num luxo constante com seu roqueiro de sucesso, Vicky dependia cada vez mais de dinheiro, para suas extravagncias.
	Voc tem boas chances  Samantha comentou, aps alguns instantes.
	No vou lhe perguntar por qu, j que voc parece fazer tanta questo de manter sigilo em torno de Vicky. Mas agradeo, mesmo assim.
	Tenho meus motivos, acredite. Espero, tambm, que no se esquea que minha participao neste caso est no campo da tentativa. Portanto, farei tudo o que estiver a meu alcance, para ajud-lo.
	Entendo e aceito seu oferecimento.  Clay fez uma pausa, antes de acrescentar:  No querendo parecer precipitado, gostaria de saber quando voc pretende levar os papis at Vicky. Pergunto-lhe isto porque tenho que prestar contas aos investidores do projeto. E meu prazo est se esgotando.
	Eu poderia tentar encontr-la amanh.  Samantha franziu a testa, em sinal de preocupao.  Mas preciso pensar em Jess.
	No entendo.
	Est muito tarde para incomodar a sra. Lindson. E no quero levar Jess comigo.
	Outro de seus motivos misteriosos...
	Exatamente  ela confirmou, num tom severo.
	Tenho a soluo para o problema  Clay anunciou, aps alguns instantes de reflexo.  Eu ficarei com ele.
	No acredito que voc vai deixar suas responsabilidades no trabalho, para servir de bab para um garoto  Samantha retrucou, impaciente.
	Estou muito bem assessorado, no se preocupe. E mais: no se trata de um garoto apenas, e sim de Jess, o que  muito diferente.
Samantha teve de reconhecer que ele havia acertado o alvo... em cheio!
	Est bem  concordou, a contragosto.
	Otimo. A que horas devo estar acjui?
	Oito em ponto.
	Combinado.
Parando, no meio da sala, Clay fitou-a no fundo dos olhos.
	Quero lhe dizer uma coisa, a nvel pessoal, e espero que me oua com ateno, sem me interromper, se possvel.
Samantha sentiu o corao acelerar e respirou fundo, preparando-se para o que viria. Clay continuou:
	Venho me arrastando atrs de voc por anos a fio, esperando que num momento qualquer acontea um milagre, que me faa ser correspondido em meu amor. Mas para tudo existe um limite e acho que hoje cheguei ao meu. Nunca mais vou perturb-la com um sentimento que, afinal, s lhe causa desagrado e repulsa. Assim que estiver de posse da assinatura de Vicky, desaparecerei de sua vida. Alis, voc deixou bem claro que  exatamente isso que deseja de mim. Boa noite, Samantha Adamson. Durma bem e sonhe com os anjos. 
Assim falando Clay saiu, sem olhar para trs. Pouco depois, o som do BMW prateado partindo soou na fresca noite de vero.
Um intenso desnimo caiu sobre Samantha, na sala agora silenciosa. O contrrio da presena energtica de Clay era um vazio insuportvel.
Seguindo um ritual que fazia todas as noites, ela verificou as luzes e o gs. Em seguida, deixando um abajur de canto aceso na sala, saiu lentamente a escada em direo a seu quarto, pensando na cama fria que a aguardava para mais uma noite insone.
Na manh seguinte, Samantha sentia-se um pouco mais disposta. Acordou muito cedo, pois tinha de concluir a coluna semanal para o jornal.
Depois de alimentar Jess e deix-lo brincando no quintal dos fundos, ela foi para o escritrio e ali mergulhou no trabalho, com determinao. Pouco depois enviava a coluna, via modem, para o editor do jornal. Podia agora rever o projeto de Clay, com toda a calma, para conhec-lo a fundo. Queria estar pronta para qualquer pergunta que Vicky pudesse fazer, embora no acreditasse que isso pudesse acontecer. Afinal, o estilo de Vicky era mais direto, do tipo sim ou no. Em todo caso, Samantha pensou, estaria preparada.
Depois de admirar uma vez mais a brilhante concepo do projeto de Clay, ela decidiu isolar as trs ltimas folhas, com a sntese do projeto, mais a proposta de compra, e coloc-las num envelope  parte. Pois aquilo era tudo o que Vicky precisava ver.
Agora, tinha que vestir-se e aguardar a chegada de Clay.
Ao contrrio do estilo sbrio, que era sua marca registrada, Samantha resolveu usar jeans e uma blusa de crepe, bem colorida. Sapatilhas leves de dana, brincos e uma maquiagem leve, deixavam-na mais jovem e de acordo com o ambiente onde a irm vivia.
Assim, quando Clay tocou a campainha deparou com uma surpresa: Samantha era a rplica de Vicky.
	Voc est parecendo sua irm  disse, entre confuso e espantado.
	 proposital. No quero parecer um peixe fora da gua.
	Essa eu no entendi  Clay confessou.
	As pessoas com quem Vicky convive vestem-se de maneira bem descontrada  Samantha explicou.
	Certo. E voc j est pronta para partir?
	Sim. S vou pegar minha bolsa e despedir-me de Jess.
	Onde ele est?
	No quintal dos fundos.
	Vou at l, falar com ele.
	Espere, Clay.
	Sim?  ele reagiu, surpreso, olhando-a bem de perto.
	Gostaria de fazer algumas recomendaes, se no se importa.
	J sei nada de frituras, bebidas artificiais ou...
	No se trata disso.  Samantha deu-lhe uma pequena folha de papel.  Aqui esto os telefones de emergncia que voc deve ter  mo.
	Fique tranquila. Saberei cuidar de Jess. Agora, se no tem mais nenhuma recomendao a fazer...
	No.  s isso mesmo.
	Est bem.  Clay atravessou a sala e a cozinha, abrindo a porta que dava para os fundos da propriedade.
Pouco depois, Samantha observava pai e filho no quintal, conversando alegremente. A cena era linda, como sempre. Porm, ela no podia demorar-se a contempl-la. Precisava partir, pois tinha uma difcil misso pela frente.
O apartamento no centro de San Francisco, onde Vicky morava com o lder do grupo de rock Sin-Seers, estava abandonado.
De m vontade, o sndico informou a Samantha que o casal havia partido h mais de vinte dias, e que o contrato de locao fora rescindido. Avisou-a, tambm, que no tinha o novo endereo.
Justamente naquele momento, duas adolescentes passaram pela portaria, onde Samantha e o sndico estavam conversando. Ao ouvirem o nome Sin-Seers, ambas sorriram e comentaram, entre si, sobre o ltimo show deles a qual tinham assistido.
	Vocs gostam dos Sin-Seers?  Samantha abordou-as.
	Adoro  disse uma delas.
	 o que existe de melhor, no rock  a outra afirmou.
	E por acaso vocs sabem onde posso encontr-los?  Samantha indagou, ansiosa.
As duas adolescentes entreolharam-se.
	Eu li, no Inland Empire Express, que os Sin-Seers ganharam, do produtor, a Manso Creason, como parte do pagamento pela gravao do novo CD  disse uma.
	Parece que eles vo morar l e transformar parte da manso num estdio s deles  a outra completou.  Puxa, vai ser demais.
	Obrigada pela informao, meninas  Samantha agradeceu. Com um aceno, despediu-se e saiu do edifcio.
J na rua, ela riu de si mesma. O Inland Empire Express, que segundo as garotas havia publicado o artigo falando sobre a mudana do grupo para a Manso Creason, era justamente o jornal para o qual ela trabalhava.
"No leio o que meus prprios colegas escrevem", Samantha pensou. "Bem, aposto que a recproca  verdadeira."
Dirigindo seu pequeno Escort pela movimentada San Francisco, Samantha agradecia a sorte e preparava-se para o encontro com Vicky.
A menina, a quem ela sempre tentara proteger dos perigos do mundo, tornara-se uma mulher, com um estilo de vida fora dos padres habituais. Seria feliz, assim?
Samantha no saberia dizer. Afinal, via to pouco a irm.
O bairro onde situava-se a Manso Creason era longe do centro da cidade. Com muito verde e construes isoladas umas das outras, era o paraso dos afortunados da sorte.
Samantha no demorou a encontrar o que procurava, mas teve a passagem barrada por seguranas, que detiveram o carro numa guarita, prxima  entrada da propriedade, que era muito grande.
Consultada por telefone, Vicky autorizou-a a entrar, depois de perguntar-lhe se estava sozinha.
Dirigindo pelas belas alamedas que conduziam  entrada da manso, Samantha pensava que agira certo ao decidir no trazer Jess. O menino no seria bem recebido, ali.
Estacionando seu pequeno Escort, que destoava do luxo em torno, Samantha subiu as escadarias de mrmore da imponente construo. Tocou a campainha e aguardou.
Para sua surpresa, quem veio atender foi a prpria Vicky. Estava de penhoar, com os cabelos em desalinho e o rosto desfeito pelo sono. Ao redor de seus belos olhos, a sombra de olheiras demonstrava o desgaste que a vida irregular cobrava de sua juventude.
Oi, Sami. Vamos entrar.
Ambas atravessaram a imensa sala, em total desordem, e foram sentar-se numa pequena varanda que dava para o parque.
	Voc est bem, Vicky?  Samantha perguntou.
	Com uma terrvel ressaca. Houve uma festa aqui, ontem  noite, e acabei exagerando em algumas coisas.
	Compreendo  Samantha assentiu, triste por ver a irm, to bela, desgastada daquele jeito.  Diga-me, voc no recebeu os recados, em sua secretria eletrnica? Venho tentando entrar em contato h vrios dias.
	Recados?  Vicky franzia a testa, como se a cabea lhe doesse muito.  Oh, acho que me lembro de t-los ouvido, sim.
	E por que no me deu o retorno?
	Eu pretendia fazer isso. Mas ia sempre deixando para depois. Assim, acabei esquecendo.  De sbito, Vicky tornou-se apreensiva.  Aconteceu alguma coisa de grave, Sami?
	No. Apenas, seu ex-marido apareceu do nada, com uma proposta muito interessante para voc.
	No que venha de Clay pode me interessar. Voc sabe como me sinto, a respeito do passado. -
	Sei. E por isso me ofereci para intermediar o negcio que ele tem a lhe propor.
	No quero saber...
	Trata-se de uma soma muito grande, Vicky. Voc deveria ao menos ouvir do que se trata.
	No preciso de nada.  Ela fez um gesto abrangente.
 Tenho tudo que quero.
	Engano seu. Tudo isso pertence a seu companheiro, Mark McCall. Se um dia terminarem o relacionamento, voc ficar sem nada.
	E da?  Vicky retrucou, com displicncia.  Quem  que est pensando nisso?
	Eu estou.
	Pois no gosto de pensar no futuro. Prefiro viver o presente.
	O dia de amanh ser consequncia do que vivermos, hoje.
	Oh, claro  Vicky concordou, com indiferena.  Escute, Sami, no sei quanto a voc, mas eu estou precisando beber algo.
	Para mini, um caf.
	Impossvel... A no ser que voc mesma o faa. No quero parecer indelicada, mas acontece que proibi os empregados de circularem pela casa antes do meio-dia... Eles so to barulhentos.
	No se incomode com isso, Vicky. Posso perfeitamente passar sem o caf.
	No quer tomar outra coisa?
	No, obrigada.
	Ento, vou preparar um bourbon, com muito gelo. Volto j.
Vicky entrou na casa e Samantha recostou-se na cadeira de vime, observando a paisagem ao redor. Era magnfica, mas parecia to irreal como um cenrio cinematogrfico.
Ela sorriu ao pensar que Vicky se encaixava perfeitamente bem ali. Sempre fora aventureira e sonhadora. Morreria, se tivesse de enfrentar o cotidiano e a luta pela sobrevivncia, como a maioria dos seres humanos.
	Al.  Vicky estava de volta, com um copo na mo.
Sentando-se na cadeira ao lado, indagou:  Do que era mesmo que estvamos falando?
	Da proposta de Clay  Samantha respondeu, paciente.
	Mas eu tenho algo que Clay possa querer?
	A metade do terreno que ficou para voc, no divrcio.
	Ah... aquilo.
	Eu trouxe a proposta.  Samantha mostrou-lhe as folhas com o resumo do projeto.  Leia, por favor.
	Faa isto por mim, maninha.
Respirando fundo, Samantha comeou a leitura do documento. Mas Vicky logo a   interrompeu:
	As cifras, Sami. Quanto?
Samantha anunciou-lhe a enorme quantia, num tom respeitoso.
	... Parece razovel  disse Vicky, sem se alterar.  O que voc acha?
	Trata-se de um timo negcio. Voc pode depositar este dinheiro numa poupana, para garantir seu futuro.
	J lhe disse que o dia de amanh no me preocupa.
	Certo, Vicky  Samantha contemporizou.  No vamos discutir por causa disso. Afinal, voc aceita a proposta?
	Sim, desde que no tenha de ir a cartrios, ou a qualquer desses lugares sombrios e aborrecidos, onde as pessoas tratam de documentos e negcios.
	Isso no ser necessrio. Trouxe os papis para voc assinar.  E Samantha entregou-os a ela.  Aqui esto.
	Onde devo assinar?
Retirando da bolsa uma caneta, Samantha usou-a para apontar o local da assinatura.
	Empreste-me.
	Claro.
Vicky pegou a caneta. Enquanto espalhava no papel sua letra irregular, perguntou num tom casual:
	E o menino, como est?
	Jess vai bem... Crescendo com rapidez.
	Voc no o trouxe...
	Achei melhor no faz-lo.
	Agradeo.
Essa simples palavra atingiu Samantha como um golpe. Repreendendo-se, ela disse a si mesma que j deveria ter se acostumado com a frieza da irm com relao ao menino. Mas era sempre chocante...
	Quem ficou com Jess, para voc vir aqui?  Vicky perguntou, interrompendo-lhe os pensamentos.
	Clay.
	Ora, essa  boa.  Vicky riu, tolamente.  Gostaria de ver a cena.
Mais uma vez, Samantha chocou-se com o descaso brutal demonstrado pela irm.
	No creio que- seja um caso para rir  disse, num tom seco.
	Ih...  Vicky levou a mo  boca, tal como uma criana que fosse flagrada em plena travessura.  Acho que aborrecivoc, no foi, mana?
	Nem tanto.  Samantha ergueu-se, recolhendo os papis j assinados.  Tenho de ir, agora. Darei notcias, maninha.
	Est bem. At outra hora.
Vicky no se deu ao trabalho de acompanh-la at a porta. Sentada displicentemente na cadeira de vime, com o copo nas mos, ficou observando-a afastar-se, com uma expresso curiosa no rosto.
Ento Clay resolveu aparecer...  pensou, em voz alta, quando Samantha j no podia ouvi-la.  Acho que vou fazer uma surpresa para ele. E, desta vez, maninha, no vou deix-la estragar suas chances de felicidade. Palavra de Vicky Adamson.
Dirigindo de volta para casa Samantha, sentia-se bastante satisfeita.
Tinha conseguido ser til a Clay, alm de garantir, a Vicky, alguma estabilidade para o futuro. Agora, era apenas uma questo de ser firme com o homem que amava, para afast-lo definitivamente de sua vida.
Sim, ela se dizia. Criar Jess e levar seu trabalho em frente: isso era tudo o que desejava. Mas ento, por que sentia o corao pequeno, s em pensar que no mais veria Clay?
Descendo o vidro do carro, Samantha esperou que o vento forte levasse seus pensamentos inquietantes para longe... E ento concentrou-se na estrada.
Quando estacionou em frente a sua casa, ela consultou o relgio de pulso, num gesto condicionado. Faltavam quinze minutos para as trs. E a tarde continuava linda.
Sem pressa, Samantha subiu at a varanda, abriu a porta e entrou na casa silenciosa.
Na sala, sentado no sof, Clay lia uma revista. Sua mo direita estava apoiada na cabea de Jess, que dormia a seu lado.
Ao v-la, ele ergueu os olhos e sorriu. Havia tanta beleza naquele simples gesto, que Samantha sentiu-se vacilar, no recanto mais ntimo de seu ser.
	E ento?  ele perguntou, baixinho.
	Venha at a cozinha, para podermos conversar  ela pediu, no mesmo tom, apontando Jess.
Lentamente, Clay levantou-se e seguiu-a.
	E ento...  perguntou, com alegre expectativa.  Conseguiu?
	Sim  ela disse, triunfante.  Vicky assinou os papis, que alis esto aqui neste envelope.
	Voc  demais.
Clay abraou-a com tanta naturalidade, que ela no pde impedir. Mas o contato fsico era forte demais para ser ignorado. E Samantha afastou-se, indagando:
Jess deu muito trabalho?
 Nenhum. Ele  um menino maravilhoso. Brincamos no quintal at a hora do almoo.
	E o que comeram?
	Maionese, com po rabe e suco de ma. Como v, nada de frituras ou qumicas perigosas.
A expresso de Clay era cmica e Samantha no pde deixar de sorrir.
	Pensei que voc fosse pedir uma pizza pelo telefone.
	Ocorreu-me a ideia, mas consegui me conter.
	Otimo.
	Sobrou um bocado de comida. Quer que eu prepare um sanduche para voc?
	Creio que sim. Estou faminta  ela reconheceu, surpresa.
	Em um instante ficar pronto. Mas conte-me, como vai Vicky?
	Bem, eu diria.
Detendo o movimento de espalhar a maionese sobre o po, Clay fitou-a com curiosidade.
	Vamos l, Sami. Diga de uma vez. Vicky est metida em alguma encrenca, como alis eu j imaginava? Se for isto, no se acanhe em me contar. Tenho bons advogados que poderiam ajudar e...
	No se trata disso  ela o interrompeu, impaciente.  E o estilo de vida que ela leva, seus valores pessoais e sua viso de mundo que me preocupam.
	Voc no poderia ser mais explcita?  ele pediu. E depois tentou gracejar.  Sou Clay Ellis, lembra-se? Conheo vocs desde que eram adolescentes.
A tentao era muito forte. Um ombro amigo para desabafar as incertezas da vida, os medos e inseguranas... E Samantha sentiu que precisava reagir.
	Agradeo o que voc est tentando fazer mas, sinceramente, posso dar conta de meus problemas.
O tom no era ofensivo, Clay notou. Ao contrrio, havia at mesmo uma certa ternura naquelas palavras. Mas ali estava a barreira intransponvel que Samantha erguera contra ele. Era impossvel no sentir-se rejeitado.
	Voc acaba de prestar-me um grande favor. Ao menos por isto deveria deixar que eu retribusse, de algum modo.
A dor que transparecia na voz de Clay fez com que Samantha reagisse brutalmente. Era melhor assim, antes que cedesse em todos os pontos, apenas para no v-lo sofrer.
	No fiz isto por voc e sim por Vicky  ela sentenciou, num tom ferino.  Portanto, voc no me deve nada...
	E voc quer que eu me retire e desaparea de sua vida?
	Que maneira dura de dizer as coisas. Mas a ideia geral  essa mesmo, Clay.  Samantha fitava a janela, para evitar fixar Clay no rosto, ou nos olhos, que tanto a hipnotizavam.
	Por qu?  ele indagou, com a voz trmula de angstia.  O que foi que eu lhe fiz? D-me uma s razo, pelo amor de Deus...
	Eu lhe darei todas as razes de que voc precisa, Clay Ellis  disse Vicky, entrando na cozinha.
	O que voc est fazendo aqui?  Samantha perguntou, apavorada.
	Vim impedir que esta farsa prossiga. Estou farta de ver voc bancar a irm que tudo sabe, a dona da verdade.  Vicky riu, com ironia  Vamos l, Sami. Diga a ele o que vem escondendo todo esse tempo. Acha justo deix-lo ignorar os fatos?
	Voc no sabe o que est fazendo, mana  Samantha tentou contemporizar.  Voc no tem esse direito...
	Tenho, sim. Fao parte de toda essa confuso que voc armou, sabe Deus porqu.
	Do que ela est falando?  Clay perguntou, atnito.  Algum pode me dizer o que se passa, aqui?
	Voc quer mesmo saber?  Vicky interveio.
	No, mana. Por favor...  Samantha implorou.
Voc pode escolher, querida irm. Voc fala, ou falo eu.
Samantha nada respondeu. As lgrimas escorriam-lhe do rosto em profuso, enquanto ela retorcia as mos, em profundo desespero.
Clay moveu-se com rapidez. Chegando em frente a Vicky. segurou-a pelos ombros, sacudindo-a levemente.
	Pare com isso. Seja o que for que voc tenha a me dizer, eu no quero ouvir.
	Nossa!  Ela sorriu, com evidente ironia.  Como voc  nobre, Clay Ellis... Um perfeito cavalheiro. Alis, vocs dois se merecem, sabia?
	Voc est bbada  ele concluiu, com desgosto.
	Incorreto. Um pouco tocada, talvez. Mas isto no muda os fatos.
	Saia, Vicky Samantha ordenou, empurrando-a para fora da cozinha.
	No toque em mim, srta. Perfeio  ela gracejou, rudemente.  Assim, acabar contaminando suas mos puras.
	Vocs vo acabar acordando Jess  Clay avisou, num tom severo.  O que pensaria o menino ao ver sua tia bbada, no meio da tarde, fazendo tal escndalo? ... vergonhoso.
	Engano seu, querido. A tia de Jess est sbria como uma freira. A me  que est meio embriagada.
	Controle-se  ele ordenou.  Voc est falando como uma demente.
	Estou?  Vicky riu, sarcstica.  Pergunte a sua virtuosa amada se ela acha o mesmo...
Os olhos de Clay procuraram os de Samantha, que estavam fixos no piso e l permaneceram.
	Diga alguma coisa, Sami, antes que eu faa alguma besteira  ele implorou.
Ela permanecia em silncio, as lgrimas rolando pelo rosto, enquanto Vicky repetia:
	A me de Jess est levemente embriagada... Mas a tia continua pura e sbria, como sempre.  Assumindo um tom severo, ela voltou-se para o ex-marido:  E ento, Clay Ellis? Est pronto para ouvir a verdade, ou pretende continuar bancando o idiota?

CAPITULO VIII

O silncio era mortal, na cozinha da casa de Samantha.
Na sala, Jess menino dormia inocentemente, a salvo de toda a confuso e da dor que os adultos criavam entre si.
Clay olhava as duas irms a sua frente. Eram muito parecidas, fisicamente. Mas ele sabia a diferena enorme que existia entre ambas mulheres. Amara desesperadamente a mais velha e casara-se com a nova, num engano que lhe custara muito caro.
Agora estava prestes a conhecer certas verdades que lhe haviam sido negadas... E, estranhamente, no tinha certeza de querer ouvi-las.
Fechando os olhos com fora, ele tentou encontrar a coragem de que precisava, para enfrentar aquele momento difcil. Fora um menino feliz, bem-ajustdo, com pais que o amavam, davam-lhe ateno e carinho.
Na adolescncia, sofrera as inseguranas e dvidas prprias de todos os jovens. Mas nada o marcara indevidamente, a ponto de distorcer-lhe o carter.
Inteligente e sensvel, ele tivera a sorte de encontrar uma profisso que satisfizesse seu talento e criatividade: a arqui-tetura. E experimentara o sucesso.
Decididamente, ele no podia reclamar da vida...
Tudo isso Clay Ellis dizia a si mesmo, naquele momento. Precisava ser forte e j sabia que fora era a somatria de calma, bom-senso, auto-controle, lucidez e, sobretudo, coragem. Respirando fundo, ele declarou:
 Pode falar, Vicky. Estou muito interessado em ouvir o que voc tem a dizer.
	Este  o Clay Ellis que sempre admirei e com quem acabei me casando  ela disse, num tom inesperadamente srio.  Um homem equilibrado e corajoso nas horas mais difceis... Gosto de voc, Clay, apesar de tudo.
	No fundo, sempre sobra algum carinho  ele afirmou, no mesmo tom.  Fale, Vicky.
	Certo. Em primeiro lugar, quero dizer que Jess  meu filho.
	No seja ridcula  ele advertiu-a, impaciente. Voltando-se para Samantha, pediu seu apoio.  Sami, faa alguma coisa para parar com este absurdo.
	Infelizmente, no posso. Acho que daqui por diante cada um ter de cuidar de si mesmo. Sinto muito, Clay.
	Bravos  disse Vicky, num tom irnico.  Vamos brincar de dividir responsabilidades. Assim, a conversa se torna mais interessante.
	Responsabilizei-me desde o princpio pelo nascimento de Jess. E no me arrependo de nada do que fiz  Samantha declarou, com dignidade.
	Mas existem maneiras de se agir  Vicky provocou-a  Uma nica ao, vista sob dois ngulos diferentes...
 Quero ouvir o que Samantha tem a dizer  Clay a interrompeu.
	Pois muito bem.  Samantha caminhou at a janela, que dava para o quintal dos fundos.
De costas para ambos, comeou:
	Eu j morava em San Francisco, quando certa tarde recebi a visita de Vicky, que estava grvida. E um filho no fazia parte de seus planos de vida. Tinha se divorciado de voc recentemente. E queria desfrutar a liberdade, sem entraves.
Clay sentou-se numa cadeira, cruzando as pernas e apoiando o rosto na mo, com um misto de tristeza e ansiedade nos olhos negros.
	Fui radicalmente contra o aborto e prefiro no enumerar as inmeras razes que me levaram a isso  Samantha prosseguiu.  Disse a Vicky que me responsabilizaria pelo beb, aps o nascimento, e que o criaria como se fosse meu prprio filho. Mas haviam questes legais. O fato de eu ser tia legtima do beb, em nada garantiria a benevolncia do servio de adoo. Afinal, eu no era casada. E havia comeado a trabalhar h pouco tempo.
Voltando-se, Samantha foi at o filtro e serviu-se de um copo de gua. Sorveu o lquido refrescante em pequenos goles e depois continuou:
	A ideia surgiu quando a secretria do ginecologista de Vicky confundiu-me com ela. Nossa semelhana fsica  um fato comprovado por todos que nos conhecem. E, na poca, ela costumava usar alguns de meus vestidos soltos, que disfaravam melhor a gravidez j aparente.
	Trocamos de mdico  Vicky interveio.  E quando forneci os dados para o preenchimento da ficha, apresentei os documentos de Sami. Foi simples e rpido. Ningum desconfiou de nada.
	Foi a primeira vez que agi contra a lei  Samantha afirmou, muito plida.  E, naquele momento, isso no me pareceu errado.
	Voc pensa diferente, agora?  A voz de Clay, naturalmente grave e pausada, soou trmula e abafada na cozinha, onde os raios do sol da tarde desenhavam rstias no piso de cermica.
	J no tenho certeza de nada  Samantha murmurou, como se para si mesma.  O fato  que Vicky deu entrada na maternidade, fazendo-se passar por mim. Quando Jess nasceu, foi registrado como filho de Samantha Adamson e de pai desconhecido.
	E o verdadeiro pai da criana?  Clay no pde deixar de perguntar.  Ele ao menos sabia do que estava ocorrendo?
	Na verdade, querido, nem eu mesma tinha certeza de quem era aquela criana  disse Vicky, com uma tranquilidade surpreendente.  Tive relaes com trs ou quatro pessoas diferentes, na mesma poca. E isso tornava tudo muito complicado.
	Voc no existe, Vicky  disse Clay, com desgosto.
	Existo sim, meu bem. Tanto  que estou aqui, desfazendo mal-entendidos  ela retrucou, encarando-o com ar de desafio.
	Bem, agora voc sabe a verdade  Samantha finalizou.  E pode me julgar como quiser.
	No me sinto no direito de faz-lo.  Clay levantou-se e fitou-a nos olhos.  Amo voc, como sempre. E podemos consertar toda essa trapalhada. Deixe-me ajud-la, por favor.
	Acontece que a histria ainda no acabou  Vicky interveio.
	No faa isso  Samantha a advertiu, horrorizada.  Voc no tem ideia do mal que pode causar...
	Do que vocs esto falando, agora?  Clay indagou, olhando de Samantha para Vicky.  O que mais andaram escondendo de mim?
	O fato de existir uma grande possibilidade de Jess ser seu filho  Vicky resumiu.
	Por favor, no  Samantha pediu, num tom de splica.
	No acredito no que estou ouvindo  Clay reagiu, furioso.
	Pois deveria, meu caro  Vicky retrucou, com uma calma
espantosa.  Lembra-se de que h pouco falei que trs ou quatro pessoas poderiam ser o pai de Jess? Voc  um deles.
	Voc est louca!  Clay quase gritou. Mas, olhando para Samantha, compreendeu que era verdade, que o que Vicky estava dizendo no era to absurdo assim.  Voc sabia disso desde o incio e no me disse nada?  perguntou, com um misto de fria e mgoa.  Como pde fazer isto comigo Sami?
	No havia uma certeza  ela balbuciou.
	Isto no  desculpa e voc sabe. O fato de existir a possi bilidade j era motivo suficiente para que eu fosse comunicado.
Samantha nada respondeu. Sentia-se arrasada, vendo o mundo desmoronar diante de seus olhos.
	Eu poderia esperar esta e outras atitudes, vindas de Vicky... Mas de voc, nunca.
	Eu tinha de proteger Jess  ela defendeu-se, elevando a voz.
	Proteger... de quem? De mim? Acaso sou um monstro, um ser nocivo  sociedade... um marginal? No, Samantha.
Ainda no compreendo os motivos que a levaram a se comportar dessa forma. Estou to perplexo quanto desapontado. No fundo,
talvez a semelhana entre vocs duas no seja apenas fsica.
	Voc est indo longe demais, Clay Ellis  Vicky o advertiu, irritada.  Posso ser uma mulher ftil e vazia, que despreza os conceitos morais de uma sociedade hipcrita e mentirosa. Mas at mesmo eu consigo discernir uma pessoa de carter de outra, que no o tem. No se atreva a falar de minha irm, neste tom.
	Deixe, Vicky, ele tem razo  Samantha interveio, com um suspiro.  No me comportei melhor do que todas as outras mulheres, que desprezava. De certa maneira, igualei-me a elas, com minha atitude.
	Acontece que todos os seres humanos, mesmo os mais admirveis, so passveis de cometer erros. Voc, por exem plo, pode ter errado gravemente. Mas da a ter que ouvir desaforos...
	Pense bem no que vai dizer, Vicky  Clay apartou, rspido.  Este assunto no vai ficar assim; voc ter de arcar com sua parte, nas responsabilidades. Portanto, no agrave sua posio com agresses inteis.
	Estou trmula de medo, Clay Ellis  ela o desafiou.  O que voc vai fazer, hein?
	Vicky, contenha-se, por favor  Samantha implorou, as sustada  Pense em Jess.
	Ela no pensa em ningum, exceto em si mesma  Clay sentenciou, com desprezo.  Alis acho que ela simplesmente no pensa, eis a questo.
	Em parte, voc est com a razo  Vicky retrucou, no mesmo tom.  Tenho mais o que fazer, alm de poluir minha cabea com ideias atrasadas e preconceituosas.
	S que voc est se esquecendo de que existem leis neste pas  ele argumentou, muito srio.  Ou voc se julga acima
delas?
	E qual lei vai fazer Samantha gostar de voc?
Clay empalideceu. As palavras de Vicky haviam atingido o alvo. E ela continuou, num tom ferino:
	Voc pensa que  muito mais do que eu. Alis, julga-se superior a todas as outras pessoas.  Com sarcasmo, acrescentou:  Clay Ellis... Todo satisfeito consigo mesmo... O bom menino de cidade pequena, querido pelos amigos, cole
gas, pais, professores... O exemplo de filho perfeito... O arquiteto de sucesso...
	Ah, ento  isso  ele a interrompeu, lvido de raiva.  O meu sucesso a incomoda, Vicky?
	Voc  uma fraude, que no resiste ao menor exame. Basta ver seu comportamento idiota, correndo atrs de Samantha como um tolo... Perturbando-a tanto com seu assdio, que ela teve de fugir para outra cidade, s para ficar livre de voc.
	Vicky, cale-se!  Samantha ordenou, desesperada.
A expresso de Clay era assustadora. O inferno se desencadeara dentro dele, com aquelas palavras cruis, que o atingiam como tiros.
	No, Sami  Vicky negou-se, decidida.  Agora, vou at o fim.  Encarando Clay com raiva, interpelou-o:  Pensa que no sei por que voc se casou comigo?
	Diga  ele a desafiou.  Voc deve ter belas razes, nesse depsito de lixo que  sua cabea.
Ignorando a provocao, Vicky declarou:
	Nunca disse a ningum, nem mesmo a Samantha, que na noite de npcias voc me chamou pelo nome dela, enquanto me possua. Depois, reagiu indignado quando me interessei por Roy Vought. O que voc esperava de mim, Clay Ellis? Que eu me adaptasse ao papel de substituta de seu amor frustrado?
	Voc  mesmo uma caixinha de surpresas, Vicky  ele sentenciou, depois de fazer um intenso esforo para no perder de vez o controle.  Foi bastante inteligente usando minhas falhas, para justificar as suas. Voc mesma disse, no comeo desta conversa, que um nico fato, visto de dois pontos diferentes, pode ter dois significados... Casei-me com voc, como o faria com outra qualquer. Estava desesperado e pareceu-me uma soluo interessante. At a, eu j consegui me desculpar pela besteira. O que torna as coisas mais difceis para meu ego  o fato de eu haver procurado, em voc, uma alma... S que voc  desprovida disso.
Antes que Vicky pudesse retrucar, ele caminhou at a porta e disse como despedida:
	Vocs tero notcias minhas, atravs de meu advogado.
 De passagem pela sala, pegou os documentos assinados por Vicky, naquela manh.  Devo este favor a voc, Samantha.
No me esquecerei disso, e muito menos de todo o resto. Pode estar certa.  E saiu.
As duas irms ficaram paradas, na cozinha, em completo silncio at ouvir o motor do carro de Clay se perder na distncia.
	Preciso beber algo  disse Vicky, por fim, abrindo a geladeira e apossando-se de uma cerveja em lata,  Que dia, meu Deus...
	Voc tem noo do que acabou de fazer?  A voz de Samantha soava neutra, como se nada mais tivesse importncia.
	Disse duas ou trs verdades quele pretencioso, e acabei com esse segredo tolo a respeito da verdadeira origem de Jess.
	Voc fez bem mais do que isso, Vicky. Voc disse a Clay que o enganamos e deu-lhe as armas necessrias para tentar tirar Jess de mim.
	No seja to dramtica, Sarni.  Ela sorveu um longo gole de cerveja.  Na verdade, acho que prestei um favor a ambos.
	Voc s pode estar brincando.
	Que nada. Clay  louco por voc... Sempre foi. E  correspondido em seu amor, no adianta negar, pois sei o que voc sente por ele. Pelo que tudo indica, Jess  mesmo filho de Clay... E como voc se considera me legtima dele...  Deixando a frase no ar, ela sorriu.  Assim vocs acertam as diferenas, casam-se e terminar de criar o menino. Que lindo
final feliz, maninha... No concorda comigo?
Samantha meneou a cabea, em sinal de negao, antes de dizer:
	Clay vai procurar provar sua paternidade, atravs de exames de DNA. Com certeza, o resultado ser positivo. J o mesmo no se dar, se eu me submeter ao mesmo exame. E ento o ato ilegal que praticamos, trocando as identidades na
poca do nascimento de Jess, vir  tona. Com isto, minhas chances de ficar com o menino sero praticamente nulas, j
que qualquer juiz me considerar sem idoneidade moral para adot-lo. Quer que eu continue?
Vicky mordeu os lbios, o que nela era sinal de perplexidade.
	Eu no havia pensado nisso. Mas existe ainda a possibilidade de voc e Clay entrarem num acordo. Por que no o
aceita como marido, tal como sugeri?
	Em primeiro lugar, no sei se ele ainda me quer, depois de ter ouvido toda a verdade.
	Ele nunca vai deixar de querer voc, Sami.
	Mesmo que isso fosse verdade, eu no poderia aceit-lo.
	E por qu, em nome de Deus? Voc ama ou no esse homem?  Vicky perguntou, exasperada.
	Amo e sempre amei.
	Est a uma coisa que me intriga. Quando voc abandonou Clay e partiu para San Francisco, achei que tinha agido assim para conquistar sua independncia. Mas agora duvido disso.
 Vicky fez uma pausa.  Por que foi, ento, Sami?
	Eu tinha fortes motivos. Nunca lhe falei a respeito, para poup-la de uma verdade que s serviria para torn-la ainda mais amarga e revoltada, com relao s pessoas em geral.
Mas acho que chegou a hora de voc saber...
Agora que estavam  ss, Vicky deixara cair a mscara de mulher ftil e agressiva. Parecia apenas uma jovem assustada, mas no hesitaria em tornar-se fera, assim que se sentisse ameaada.
	Lembra-se de uma noite em que caminhamos longamente, por pastagens e plantaes, at o amanhecer? Voc, apesar de dois anos mais nova do que eu, era muito frgil e estava cansada. Tive de carreg-la por um bom tempo. Tomamos leite numa fazenda e voc quis brincar com os patos que nadavam no lago, ficou toda molhada e tremendo...
	Sim, mas  uma memria vaga. Fazia muito frio e nunca entendi porque no estvamos em nossas camas quentes e confortveis. Fiquei com raiva de voc.
	Estvamos fugindo, embora voc no tivesse conscincia do fato.
	Fugindo do qu?  Vicky perguntou, surpresa.
	Do nosso pai de criao, da poca. Ele havia acabado de me estuprar. E conseguiu isto, ameaando fazer com voc, se eu no consentisse em aceit-lo.
	Jesus...  Vicky murmurou, chocada.  Sabia que havia alguma coisa errada, mas nunca poderia supor....  Aps uma
pausa, indagou:  E o que voc fez?
	Tentei contar a verdade s autoridades municipais, que cuidavam de ns. Ningum acreditou. O mdico da cidade era amigo ntimo do grande canalha que havia cometido aquele crime e fez de tudo para encobrir a sujeira toda.
Samantha mantinha a voz baixa, como se temesse que mais algum, alm de Vicky pudesse ouvir aquelas monstruosidades. As lgrimas escorriam-lhe pelo rosto, mas ela nem se importou em enxug-las, enquanto prosseguia:
	O velho mdico encontrou uma explicao bastante sensata para o que estava acontecendo comigo. Disse que eu havia tido minha primeira menstruao e que por pura maldade inventara aquela histria, s para prejudicar seu amigo.
	E todos acreditaram.
	Quem no acreditaria? Era a palavra de uma enjeitada contra a de um mdico que tinha livre acesso a todas as casas da cidade, cuidando da sade de pessoas que, em sua maioria, tinham nascido pelas mos dele...
Aproximando-se, Vicky abraou-a com fora. E ambas choraram em silncio, por um longo momento.
	Pobre querida  Vicky disse, baixinho.  O mundo foi cruel demais com voc.
	Deixe-me continuar, maninha.  Samantha desvencilhou-se delicadamente do abrao.  Preciso dizer tudo agora.
	Fale, Sami. Voc no pode carregar esse peso sozinha por mais tempo.
Respirando fundo, ela continuou:
	Se decidi continuar vivendo, foi apenas por voc. Conhecia, j, a face obscura da vida, e tinha que proteg-la. Tornei-me uma espcie de animal assustado, arredia a tudo e a todos. E ento o tempo foi se encarregando de lavar as feridas e recompor o sentido da existncia.
	Como voc conseguiu?  Vicky perguntou, atnita.  Eu teria enlouquecido.
	Talvez sim, talvez no... O ser humano  muito mais forte do que se imagina. E nem todas as pessoas so monstruosas como o infeliz que me desgraou.  Sentindo a garganta seca, Samantha serviu-se de um copo de gua, antes de prosseguir.
 Fui percebendo, aos poucos, que o mal  um descuido do bem, e que existem pessoas verdadeiramente admirveis, para quem a bondade  um dom natural. Se hoje sou algum razoavelmente normal, criando e convivendo em sociedade, devo tudo a essas pessoas de quem lhe falei. Elas me ajudaram a restaurar a f no ser humano e, portanto, em mim mesma.
Vicky soluava baixinho, enquanto os raios de sol tornavam-se mais tnues. A tarde logo declinaria.
	Mas a vida prosseguia, em seu fluxo constante  disse Samantha, retomando a narrativa.  s vezes eu me pegava cantando, ou sorrindo. E isso me surpreendia. Tinha comeado a trabalhar e ia bem nos estudos. Voc crescia com sade e o passado me parecia distante. Ento, comearam a aparecer as sequelas, os efeitos colaterais do que me havia acontecido.
Samantha cerrou os olhos, como se tentasse recobrar as imagens exatas de um determinado momento. Sua voz soava trmula, ao dizer:
	Foi num baile, no colgio... Uma colega me convenceu a ir. Sentia-me bem, bonita e at feliz. Talvez por isso tenha aceito danar com aquele rapaz to gentil e atencioso. At o meio do baile, tudo corria bem. Pela primeira vez na vida, eu me sentia como as outras garotas da minha idade: contente, de bem com a vida... Era perfeito.
	E esse rapaz...  Vicky tentou apartear.
Mas Samantha interrompeu-a com um gesto:
	Deixe-me terminar, por favor.  E tomou flego.  Resolvi, ento, que era hora de partir. Tinha de acordar bem
cedo, a fim de estudar para os exames, e estava um pouco preocupada com voc.
	Eu sempre lhe dando trabalho...  Vicky comentou, com um sorriso pleno de ternura.
	O rapaz insistiu em levar-me para casa. Estava com o carro do pai e acabei aceitando. Quando estacionou, em frente  casa onde morvamos, ele tentou me beijar e achei natural que o fizesse. Mas quando suas mos comearam a me tocar, senti nuseas. As imagens daquela noite terrvel voltaram com uma intensidade insuportvel. E mais assustador ainda foi um pensamento que me veio: senti que, se eu tivesse uma arma  mo, seria capaz de matar aquele rapaz. Creio que gritei e ento ele recuou, amedrontado. Depois disso conclu, com toda certeza, que eu jamais seria como as outras mulheres. O amor fsico me causava nojo. E eu no poderia ter uma relao normal com um homem.
	Sami...  A voz de Vicky soava entrecortada.  E horrvel dizer isto, mas muitas mulheres passam pelo que voc passou. E depois conseguem superar o trauma, formando uma famlia, tendo filhos... Sabe-se l  custa de que dificuldades e sofrimentos!
	Eu sei, Vicky. Tive a vida toda para pensar sobre isso.
Mas deixe-me continuar... Pois  agora que Clay entra em minha histria, mudando o sentido de tudo, trazendo luz, compreenso e amizade pra substituir as trevas e os pesadelos, desvendando para mim o sentido da misteriosa palavra amor.
	Ele foi muito importante para voc, no  mesmo?
	Ainda .  Apesar de tudo, um leve sorriso insinuou-se nos lbios de Samantha. E seu corao se aqueceu, enquanto ela dizia:  Clay foi minha primeira amizade do sexo masculino. Venceu minha resistncia com uma bondade to firme e constante, que me espantava e maravilhava ao mesmo tempo.
Mas certa vez abriu seu corao, dizendo que pretendia casar-se com uma pessoa como eu.  Ela riu, com amargura.  Pura e reservada, espiritual e linda como uma deusa... Assim ele me definia. Pobre Clay. Disse, tambm, que queria ter filhos,
construir um lar tradicional e feliz, como tantos que ele imaginava existir pelo mundo.
	Eram ideias de um adolescente, Sami  Vicky opinou.  Nada que o amor e o tempo no pudessem acertar.
Ignorando o aparte, Samantha prosseguiu:
	Eu ouvia os sonhos de Clay e sorria. Quando estava sozinha, chorava de desespero. Foi ento "que adoeci. Procurei um ginecologista, fiz uma bateria de exames e ento fiquei sabendo nunca poderia ser me.
	Sami!  Vicky exclamou, penalizada.
	E como se isso no bastasse, houve uma noite em que Clay e eu chegamos perto demais do ato de amor. Compreendi que era preciso tomar uma providncia e, no dia seguinte, fugi para San Francisco.
Um soluo interrompeu a narrativa. Samantha chorou em silncio por mais alguns momentos, antes de concluir:
	Voc pode imaginar quanto sofri. Mas, nos ltimos tempos, a vida j no me parecia to ruim. Eu tinha Jess e meu trabalho no jornal... Achava que enfim o tempo de sofrimento havia passado. Agora, no sei mais... Clay lutar para provar que o menino  seu filho. E, se o conseguir, poder tir-lo de mim. Sem Jess, no posso viver. Estou perdida.
Os soluos de Samantha cobriam as palavras de carinho que Vicky dizia, baixinho, enquanto a abraava. A tarde caa enquanto as duas mulheres se innanavam na dor.

CAPITULO IX

Depois de uma noite pssima, Clay Ellis sentia-se confuso e furioso ao mesmo tempo. No sabia como agir, j que seu mundo emocional fora profundamente abalado, uma vez mais. Pensar que a mulher que sempre amara havia trado sua confiana... era insuportvel. Agora, ele se deparava com uma realidade totalmente nova.
 Jess pode ser meu filho  disse, em voz alta.
Era difcil determinar que tipo de sentimento aquela possibilidade lhe causava. Claro que o orgulho de poder ser o pai daquela criana maravilhosa era real. Conhecera Jess e logo ficara encantado com seu jeitinho sensato de dispor os pensamentos, o sorriso que parecia aflorar desde o corao, passando pelos olhos antes de chegar aos lbios... E aquela nsia de Jess por conhecer novidades, a averso em repetir um assunto ou brincadeira, j que sua mente era rpida e inquieta!
Ele bem que havia dito a Samantha que Jess era especial. No fizera isso  guisa de elogio, mas sim movido pelos sentimentos. Decididamente, um elo muito forte o ligava quela criana. E esse elo poderia ser gentico, Clay agora o sabia.
O que o deixava perplexo era a atitude de Samantha, escondendo aqueles fatos por longos anos. Mais do que ningum, Samantha sabia o quanto ele desejava ter filhos. O fato de Jess ter sido gerado pela irm da mulher a quem ele tanto amava, era apenas mais um detalhe cruel que o destino resolvera por bem colocar.
A amargura ameaava domin-lo. E Clay pensava que, se Samantha o houvesse procurando durante a gravidez de Vicky, ele a teria ajudado a encontrar uma soluo legal para o caso. Mas no fora assim que ela agira. Preferira esconder tudo.
Com um misto de revolta e mgoa, Clay constatava que, se no houvesse precisado da assinatura de Vicky nos documentos do terreno onde pretendia construir, ele poderia morrer sem saber da existncia de Jess. Era cruel, desumano... E no combinava com a imagem que tinha de Samantha.
"O que devo fazer", perguntou-se, sentando-se na cama.
Sua mente prtica apontava-lhe, naturalmente, as solues legais. Afinal, ele era um homem experiente. E, se chegara at onde estava, fora  custa de muita luta, sacrifcios e bom senso, nas horas difceis.
Mas a matria com a qual lidava, agora, era distinta. No se tratava de cifras, padres estticos, funcionalidade, necessidade de mercado. Havia Samantha e tambm um adorvel menino, que poderia ser seu filho.
O telefone soou e ele ergueu-se de um salto, para atender. Era Alice, sua secretria, quem chamava. Mais um dia de trabalho tinha incio. E uma surpresa, que no lhe pareceu nada agradvel, o aguardava na empresa.
	Desculpe, chefe, mas h uma garota estranha a fora, que deseja lhe falar  Alice anunciou, pouco depois dele chegar.
 Eu avisei que voc s atende com hora marcada, mas no adiantou.  Entregando-lhe uma folha de papel dobrada em quatro, acrescentou:  Ela insistiu para que eu lhe desse isto.
Clay desdobrou a folha e leu a breve mensagem:

Preciso falar com voc. E importante. Vicky.
Deveria atend-la, ele se perguntou. Ou Vicky teria vindo apenas para ofend-lo novamente?
	Muito bem, j estou farta de esperar.  Vicky entrou na sala, com ar decidido. Aproximando-se da mesa de trabalho de Clay, anunciou:  Tomarei apenas cinco minutos do seu tempo. Agora, mande esta Barbie sair daqui, antes que eu perca a pacincia.
Clay teria rido da comparao, se no estivesse to tenso e desgastado. De fato sua secretria, Alice, era alta, esguia, e tinha os cabelos lisos tingidos de loiro... Como a boneca Barbie!
	Veja l como fala, Vicky  ele advertiu.  No admito que voc desrespeite Alice desse jeito.
	Deixe estar, Clay  a secretria interveio, lanando um olhar de desagrado  recm-chegada,  Eu j vou sair.
To logo a porta se fechou, Clay encarou Vicky com severidade. Diga logo porque veio, e a que veio.
	Precisamos conversar.  Ela deixou-se cair numa cadeira, em frente  mesa.
	Se est pensando no pagamento que devo lhe fazer... Devo avis-la que ser providenciado hoje mesmo. S esqueci-me de perguntar o nmero de sua conta, no Banco.
Pegando um pequeno bloco que estava sobre a mesa, Vicky anotou seu nome completo e o nmero de sua conta, no American Bank.
	Tome.  Ela entregou-lhe o papel.  Se quer mesmo saber, estou pouco me importando com esse dinheiro.
	Ento, por que veio?
Assumindo uma postura agressiva, ela indagou,  queima-roupa:
	Agora me explique por que diabos voc mandou um detetive fotografar a manso onde vivo, com meu atual marido e o pessoal do Sin-Seers?
	Oh, era isso  Clay comentou, como se para si. E explicou, calmamente.  Contratei um detetive para investigar seu paradeiro, j que Samantha recusava-se a me ajudar.
	Ento, j que voc me achou, mande aquele idiota sumir da minha vista.
	Eu farei isso  Clay garantiu.  E agora, se no tem nada mais a me dizer...
 Oh, eu tenho, sim  Vicky o interrompeu. Num tom mais srio, perguntou:  Voc pensa em processar Samantha, na justia?
	Ainda no sei.
	No faa isso. Voc vai acabar com ela.
	Samantha no pensou em mim, quando me escondeu tantos fatos importantes. Portanto, no tenho motivos para...
	Voc est fazendo tudo errado, Clay Ellis  Vicky apartou.  Samantha te ama, tente colocar isto em sua cabea-dura.
Se voc no fosse to tapado, se casaria com ela.
	Tudo to simples, no?  Clay retrucou, irnico.
Ignorando a provocao, Vicky prosseguiu:
	E j que Samantha  a me legal de Jess, voc se tornaria automaticamente o pai... E pronto! Teramos um final feliz, para essa histria to complicada.
Estreitando os olhos, Clay inclinou-se em sua direo, antes de dizer:
	Ser que voc no percebe que Samantha no me quer?
	 isto que parece... mas no .
	Tem certeza?
	Absoluta.
	E por qu?
Vicky respondeu de um s flego.
	Samantha foi estuprada quando era adolescente e ficou com um horror patolgico ao sexo. Alm do mais, teve complicaes e perdeu a capacidade de ter filhos.
O choque fez Clay empalidecer. Mas Vicky ainda no tinha dito tudo o que precisava:
	Voc, com seu romantismo exacerbado, fez Samantha pensar que no poderia ser sua esposa, to sonhada... A pura donzela que lhe daria uma dezena de pestinhas. Por isso ela fugiu. Mas no deixou de amar voc, nem por um segundo, nesses anos todos.
Clay levou um longo momento para compreender o significado profundo daquelas palavras. Por fim, conseguiu balbuciar:
	E por que voc est me contando tudo isso?
	No sei...  Vicky sorriu. J no parecia a garota ftil e agressiva de sempre. E sua voz soou mansa, ao concluir:  Acho que no aguento mais essa histria de amor truncada em que vocs se meteram. Pelo amor de Deus, Clay Ellis! Veja se d um jeito de ser feliz com aquela boba da minha irm.
A vida  to breve. E vocs dois, que se julgam to maduros e sbios, parecem no perceber isso.
Clay ainda estava chocado. Mas uma leve desconfiana ocorreu-lhe e ele resolveu tir-la a limpo.
	Como foi que voc soube disso?
	Samantha me contou, ontem  tarde. Achei que voc precisava saber.  Vicky levantou-se.  Agora sim, eu j disse tudo. Adeus, Clay.  E saiu.
	Quem  aquela, chefe?  Alice perguntou, logo depois. Clay perguntou-se como deveria responder: minha ex-esposa, minha futura cunhada, a me do meu filho, alis, do filho que penso ser meu, a tia legal de Jess... Era muito complicado e ento ele disse, simplesmente:
	Uma mulher um tanto louca, mas que no fundo possui  um grande corao.
Samantha regava o jardim, como quem fizesse yoga ou meditao. O vero caminhava para o outono, a passos largos. Mas as tardes ainda eram quentes e sem chuva. Por isso, as plantas tinham de ser regadas regularmente.
A vida seguia seu curso normal. Nenhuma novidade viera perturbar a paz daquela bela casa, situada num bairro tranquilo e agradvel.
Ao contrrio do que Samantha tanto temera, a princpio, Clay EUis no a processara. Assim, ela havia relaxado, embora soubesse que no estava totalmente a salvo daquela terrvel possibilidade.
A viso do BMW prateado estacionando no meio-fio colocou-a em alerta. Mas, estranhamente, Samantha no se sentiu to perturbada como imaginara ficar, quando revisse Clay.
	Boa tarde - ele cumprimentou-a, oferecendo-lhe um buque de margaridas.  Isto  para voc.
Samantha agradeceu o presente, com uma leve inclinao de cabea.
	Como tem passado Clay?
	Bem.
Ambos ficaram se olhando por um longo tempo, enquanto a gua corria pela mangueira, encharcando as plantas.
	No me convida para entrar? ele perguntou, por fim.
	Claro. Aceita um caf?
	Com muito prazer. Como vai Jess?
	Com sade, graas a Deus. Est brincando com os filhos da sra. Lindson.  Samantha fechou a torneira e enrolou a mangueira, colocando-a a um canto do jardim.  Venha, Clay.
 E abriu a porta da casa, dando-lhe passagem.
	Obrigado.  Ele acompanhou-a at a cozinha.
	Sente-se.  Ela apontou-lhe uma cadeira. Em seguida colocou a gua para ferver. Ajeitando as belas flores num vaso, sobre a mesa, disse com naturalidade:  Suponho que tenha vindo para ver Jess.
	Tambm...  Clay respondeu, fitando-a com intensidade.
	E o que voc pensa fazer, a respeito?
	Para ser franco, no sei. A princpio, ocorreu-me fazer um exame gentico, para saber se ele  ou no meu filho...
	O que colocaria Vicky e eu em apuros com a lei  Samantha completou, numa voz estranhamente calma.
	No necessariamente.
	Como assim?
	Bastaria apenas uma amostra de sangue minha e de Jess. Vocs poderiam ficar fora do assunto.
	Eu no havia pensado nisto  ela confessou, surpresa.
	s vezes, quando estamos muito perturbados, deixamos de considerar as ideias mais simples e eficazes.
	Tem razo.
A gua comeava a ferver. Samantha abriu um pequeno armrio, retirando o p de caf e o acar.
	Mas, afinal, o que voc pretende fazer, Clay?
	Tornar-me o pai de Jess, por outro meio. Alis, a ideia no  minha, mas da me dele.
	Vicky?
	Sim.
	Vocs andaram conversando?
	Isso mesmo.
	E o que foi que ela lhe contou?
	Tudo.
Samantha fechou os olhos com fora, por um instante. Depois, com gestos trmulos, comeou a preparar o caf.
	Ento voc j sabe porque no podemos ser felizes, juntos?
	O que ouvi de Vicky no mudou em nada meus sentimentos por voc.
	Ora, no diga bobagens.
	Estou apenas falando a verdade.
	At pode ser que voc pense assim, agora. Mas a vida  feita de longos momentos, nem todos fceis de se passar. O que voc far dentro de cinco ou dez anos, quando a realidade de uma esposa impossibilitada de gerar filhos tornar-se um peso?
	Continuarei amando voc, como sempre.
	E os seus sonhos, Clay? E tudo o que foi to importante para voc...?
	Foram sonhos, Samantha. Nada alm disso.
Ela serviu o caf em pequenas xcaras de porcelana e sentou-se  mesa, em frente a Clay.
	Voc  um homem ainda jovem, profissionalmente realizado, cheio de energia e anseios  disse, docemente, depois de sorver um gole.  O fato de seu casamento com Vicky no ter dado certo no significa que voc no possa encontrar a mulher certa.
	Voc  a mulher certa, Samantha. E nunca haver outra.
	Mas pode ser que eu no consiga me adaptar a voc. J pensou nisto?
	Voc est falando de sexo no  mesmo?
	Estou falando tambm de sexo. O que voc far com seu desejo, se eu no puder satisfaz-lo? No precisa me responder. Conheo uma dezena de mulheres que passaram pelo mesmo problema que eu e no conseguiram se adaptar  vida sexual, com seus parceiros.  deprimente, Clay.
	Esse problema acontece com a maioria dos casais, Sami ele argumentou, num tom carinhoso.  O desejo, quando maduro, vem mais do respeito e admirao que temos pela outra pessoa, do que da simples atrao fsica.
	Mas podemos ter respeito e admirao tambm por amigos.
	Concordo. Mas estou falando de amor e isto  outra matria.
	Tenho medo  ela murmurou.
	Eu sei, minha querida. Mas acredito na fora do que sentimos um pelo outro. Vamos tentar. S lhe peo isto.
	Preciso de tempo para pensar.
	Eu lhe darei todo o tempo do mundo. Mas pelo amor de Deus entenda, de uma vez por todas, que no posso viver sem voc. Eu preciso ser feliz, Sami. Por favor, d-me ao menos a chance de tentar.
	Clay...
		Samantha...
As mos se tocaram, a princpio com timidez. Mas logo ambos se abraavam, enquanto os lbios se buscavam, de forma desesperada.
	Tambm vou tentar  ela disse, por fim.  Porque amo voc acima de tudo, at mesmo do medo.
	Meu amor  ele murmurou, antes de voltar a beij-la.
Tudo j fora dito. Agora, no havia mais segredos entre ambos.
Samantha preparou-se para sentir a velha rejeio, enquanto as carcias de Clay se intensificavam... Mas a onda de emoo que a invadia, agora, j no era assustadora, como antes. Ao contrrio: soava como um chamado, convidando-a a ir mais longe... Cada vez mais longe, at pisar o territrio que sempre lhe fora proibido: o paraso, s concedido s pessoas que se amavam de verdade.
	Clay...  ela disse, baixinho, entre os beijos.  Algo est mudando...
Afastando o rosto, ele fitou-a com preocupao.
	Estou sendo vido demais, querida?
	No foi isso que eu quis dizer.  Ela sorriu, docemente.
	Ento, o qu?
	 que, pela primeira vez, no estou sentindo aquele pnico...
Como resposta, ele abraou-a com fora, apertando-a contra o peito. E Samantha compreendeu, com absoluta certeza, que um novo tempo comeava para ambos.
Relaxando as defesas que mantivera ao longo de tantos anos, ela ia cedendo s carcias, que se tornavam mais ousadas a cada segundo.
A certa altura Clay ergueu-a nos braos e indagou, ofegante:
	Onde?
Samantha entendeu perfeitamente o teor da pergunta. Fitou-o nos olhos e achou que sim, que chegara o momento de confiar que, dali por diante, tudo seria diferente. Que o passado ficara para trs. Que o tempo se encarregara de curar as velhas feridas. E que o futuro merecia um voto de confiana.
Por tudo isso, e pelas mensagens de puro amor que os olhos negros de Clay lhe enviavam, Samantha disse sim, enquanto apontava as escadas que conduziam ao segundo pavimento.
 a primeira porta  esquerda  sussurrou.
Pouco depois, Clay a depositava gentilmente na cama de seu quarto, cobrindo-a de beijos enquanto a desnudava, lentamente, preparando-a para o amor.
Samantha deixava-se levar, confiante no homem que seu corao elegera, h tanto tempo.
Com a experincia de seus trinta e dois anos, Clay a conduzia pelos caminhos s franquiados aos verdadeiros amantes.
Era difcil conter a nsia de possu-la, com todo o ardor que sua paixo exigia. Mas Clay sabia, tambm, que aquela doce tortura de ir medindo cada gesto, cada toque, tinha um toque de magia incomparvel.
Assim, entre o fogo da paixo e a delicadeza ditada pela sabedoria, ele finalmente possuiu a mulher de seus sonhos.
Samantha no saberia dizer o que era aquele fogo que a consumia, partindo-a ao meio, nem tampouco de onde vinha aquela paz que a arrebatou em seguida, lanando-a num mundo diferente, fazendo-a finalmente pisar o territrio do amor.
	Voc me fez mulher, Clay  ela disse, baixinho.
Como resposta, ele apenas aconchegou-a nos braos, enquanto traduzia a certeza que se instalava em seu corao:
	Seremos felizes... Eu, voc, Jess... E talvez outras crianas, que poderemos adotar. Temos mesmo de aumentar a famlia, sabe? S assim compartilharemos esse amor que nos consome... Um amor se estende para alm de ns, maior do que o mundo, maior do que qualquer sonho.
Samantha sorriu, inundada por uma onda de pura felicidade. Ento era possvel... Ento a vida era realmente bela e valia, mas valia mesmo, a pena.

FIM
